Os Bacongos na Independência e o "Tempo Escasso do Paraíso" 1° Parte

Publié le par Angola-Inteligente Ao servoço do povo Angolano

 
A expressão Zombo aqui é sinonimo de Bakongo... O autor descreve o seu ponto de vista e o ponto de vista colonial, que na sua maioria eram errados, sobre as etnias africanas, já que apoiavam-se em relatórios administrativos feitos por militares e espiões portugueses. A falta de estudos sérios (pesquisas e trabalho cientifico sobre as etnias Bantus) justifica o erro. 
 
 
 

 

 

 
 
Professor Doutor José Carlos de Oliveira*
Antes de nos debruçarmos propriamente sobre a independência de Angola e a guerra pelo poder político, no seio dos zombo, parece conveniente dedicarmos um último apontamento aos europeus ali residentes, sendo alguns filhos dessas mesmas terras. Sabemos que as palavras que proferimos ou escrevemos levam, ainda hoje e, por vezes, a algumas considerações que não são certamente as que estavam, na nossa intenção, quando as proferimos. É o caso da palavra ‘refugiados’, como por exemplo, quando dizemos que os residentes europeus das terras Zombo se refugiaram em Luanda. Não vale a pena divagar sobre o assunto, mas dizia‑se ‘baixinho’: “É mentira dela minha senhora, ela não quer que você fique. Sozinha comigo, na cozinha, disse‑me: se ela ficar, só fica para ganhar dinheiro para o caixão”. Uma grande maioria desses europeus refugiou‑se, em Portugal, acalentando a legítima esperança de voltar.
Todavia, o tempo foi passando e o vento que os levaria de regresso a Angola não soprou. Especialmente a nova ideologia política, o marxismo e o partido único, como ainda novos elementos da jovem estrutura social e política angolana, foram entraves fundamentais que inviabilizaram esse tão desejado regresso. A esmagadora maioria das pessoas ditas ‘retornadas’, com mais de 50 anos, já não tinham a elasticidade mental e vigor físico suficiente, para ver ruir todo o seu labor e recomeçar. A geração dos 30 aos 50 anos, que estava com ‘o sangue na guelra’, não tinha mais nada a perder e necessitava urgentemente de estabilizar as famílias e criar os filhos, aproveitou a circunstância do clima instaurado do célebre PREC – Processo Revolucionário em Curso – que se situou, no tempo, entre a ‘revolução dos cravos’ e a aprovação da Constituição Portuguesa. O PREC criou um profundo mal‑estar com o desmantelamento das oligarquias económicas então vigentes. Até mesmo os pequenos proprietários entraram em pânico e muitos também se refugiaram no Brasil, já outros, partiram para o Canadá, EUA, entre outros países. Este período revolucionário foi uma prioridade da política do Partido Comunista Português, com acções típicas, especialmente com a ocupação de casas, terras e fábricas.
O acolhimento que as respectivas famílias lhes proporcionaram à chegada e o apoio do recém‑criado organismo denominado IARN – Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – foram factores essenciais para o necessário auxílio a centenas de milhares de portugueses, que regressaram das ‘províncias ultramarinas’. Tiveram então de apreender o que significava a queda do Estado Novo e a instauração da democracia, que estiveram na base do processo de descolonização. Foram estas, razões suficientes para que os ‘retornados’ comprassem posições agrícolas, comerciais e industriais de que, à pressa, os anteriores proprietários e empresários se estavam a desfazer.
Neste momento, passemos a falar dos zombo e da sua incontida euforia, da sua tão esperada alegria sob o lema de ‘Angola é nossa’, de finalmente entrarem na posse efectiva de bens que estiveram, na base, de tantos prometimentos da UPA e dos grandes chefes da ALLIAZO. Agora, podiam regressar à sua ‘Terra Prometida’. Nada os impediria de ser felizes. Infelizmente, a paz não duraria muito tempo. Desta vez, a luta pela posse do poder político e da terra seria incomensuravelmente mais sangrenta e destruiria decerto uma grande parte do sonho de duas gerações de zombos.
O nosso ângulo de visão e de opinião foi‑nos confirmado por muito poucas pessoas que acederam conversar connosco, na cidade do Uije, em 2005.
Desta forma, em primeiro lugar, optámos por expor ao que íamos com a maior clareza, o que se revelou bom, não só porque todos sabiam que estávamos alojados em casa do bispo D. Francisco, ou seja, na Diocese, mas também porque nos viram e ouviram falar frequentemente em kikongo. Este tipo de proximidade linguística, especialmente as expressões zombo e os gestos que acompanham o discurso foram sempre uma mais‑valia. A nossa idade (67 anos), os cabelos brancos, o respeito dedicado aos mais velhos e a condescendência com os mais novos completaram a ideia francamente favorável que deixámos ficar das nossas intenções. Não os queremos então desiludir. As informações, embora conseguidas em segmentos, puderam ser acrescentadas por diferentes pessoas. Assim que tínhamos ocasião, íamos adicionando dados ao nosso bloco de apontamentos. Ao fim do dia, passávamos tudo a limpo, recheando‑o já com algumas reflexões.
Apesar de sermos visita particular de D. Francisco da Mata Mourisca, entre as centenas senão milhares de zombo que residem na cidade e nas imediações foram poucos os que aceitaram falar abertamente quando tivemos oportunidade (poucas) de os visitarmos em suas casas. De uma das situações, registamos a seguinte ‘confidência’:
(…) Assim como os portugueses desapareceram da nossa vista, também o ELNA, que entrou, sem respeito, pelas nossas vidas, (Exército de Libertação Nacional da FNLA) deixou de governar, para dar lugar às gloriosas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola do MPLA). A princípio, ficámos muito contentes, pela forma diferente que eles tinham de actuar. Grande parte eram zombos e tratavam‑nos muito bem. Foi sol de pouca dura o daquela bondade. Pouco a pouco, foram‑se revelando duros como os anteriores, vaidosos ou ainda piores. A seguir, as FAPLA foram‑se embora e vieram as complicações acrescentadas da UNITA. Já tínhamos pouca criação (cabritos e galinhas) mesmo assim, assaltavam os currais e as capoeiras, até acabaram com os porcos. O pior foi quando tomaram as nossas filhas, sem o nosso consentimento. As ameaças e agressões eram constantes e a independência estava a ter um cheiro de amargura.
Em todo o Zombo, especialmente nas terras do Beú, do Kuilo Futa e Sakandika, ‘era o paraíso’. A nossa forma de negociar e viver voltou ao princípio. No tempo da guerra colonial, para lá da ponte do Nzadi, os nossos povos só fugiram, não conheceram a verdadeira guerra. Ficámos sem nada, sim senhor! A FNLA, sem bases logísticas, sem qualquer tipo de comunicação foi aglomerar‑se na zona do Béu que ficou superlotada de membros desse grupo. Estavam desiludidos pela derrota política e militar face ao MPLA, muito ajudada pelos mercenários cubanos do general Ochoa. Ainda tentaram criar um Estado‑Maior, na zona, como último muro da resistência militar do ELNA, mas isso era uma loucura. O desespero não tardou, pareciam que estavam possuídos pelo ‘N’doki’, a possessão do mal.
O povo, novamente sem qualquer protecção, voltou a refugiar‑se nas matas. Felizmente, um comandante chamado Sebastião, que nasceu no Kimbuanzinga, povoação do Beú, defendeu, com grande risco, o seu desgraçado povo. Outro pesadelo real voltou a atingir o povo: na sua fuga, os militares, e pior, os mercenários foram sabotar o muito que já havia nas lojas, foi assim por todo o Zombo. As bombas e obuses fizeram o resto. Ficamos sem nada. O povo espreitou as viaturas carregadas de produtos da terra e ainda materiais de construção, portas, janelas, pias, por cima de camas, produtos roubados, aqui e acolá, sempre a disparar as armas, lá iam em direcção ao Kongo. As casas, as lojas, os hospitais, as casas dos antigos colonos, as nossas lojas, destruíram tudo. Inclusive, deixaram armas espalhadas, a esmo, pelo chão, qualquer pessoa do povo podia apanhá‑las e levá‑las para casa, isso aconteceu frequentemente.
Finalmente a ponte do Nzadi, construída pelos portugueses foi destruída, o povo, mais uma vez, foi quem voltou a sofrer.
 
Alguém pode imaginar o que pode passar na cabeça e no corpo de uma pessoa, quando se acorda de noite, e de repente somos encostados à parede de nossa casa, eu num lado a mulher no outro juntamente com os filhos? Eu pessoalmente tive sorte, a minha profissão fazia‑lhes falta, por isso estou ainda aqui. Assisti duramente ao passar dos anos. Vi gente boa, gente muito má, massacres, assassinos, muitos, mas muitos raptos de meninas e meninos que foram acompanhando os homens da guerra. Aqueles que queriam a independência, e isso tanto faz FNLA, MPLA ou UNITA, todos eles são responsáveis. Não estavam a resolver a nossa aflição da fome. Deixaram‑nos sem ajuda. Essa guerra, fez com que a terra Zombo, que sempre foi auto‑suficiente, só dependente do açúcar, do sal e do sabão, obrigasse as gentes ao êxodo das aldeias natais. Partiram novamente para Kinshasa e, depois do fim dos anos 80, para Luanda. (…)”
Tivemos e continuamos a ter o maior cuidado, dentro do limite possível, com a forma como transcrevemos as informações obtidas, durante todo o processo de estudo dos zombo. Fazemos um controlo rigoroso, a fim de não comprometermos quem nos confidenciou as suas amarguras e os seus momentos de felicidade. 
O Regresso às Origens
Também nesta secção, convirá, antes do mais, lembrar que parte das populações refugiadas junto das suas famílias e residentes na fronteira política do espaço Zombo, bem como as que se dirigiram às zonas periféricas da cidade de Kinshasa, foram ao longo dos anos, interiorizando o demorado processo de adaptação e integração, facilitado pelo apoio dos seus familiares, residentes de longa data, em todo o chamado ‘Bas Kongo’ (Nsi Kongo) da República Democrática do Congo. Isto significa que o seu regresso não podia ser tão linear como possa parecer, à primeira vista, uma vez que envolve, ainda hoje, no mínimo, a deslocação geográfica de duas gerações.
Passaram‑se quarenta e seis anos, desde o primeiro êxodo, as populações estão exaustas, após décadas de luta, sabem simplesmente que estão aliviadas por a guerra ter finalmente acabado. Têm de esquecer frases, como por exemplo: ‘O MPLA decepou o braço do meu pai com uma catana.’, ‘Não nos podemos agarrar às terríveis memórias da guerra, senão não viveremos’.
Não se tratou, como no caso dos portugueses de um grande pesadelo (de quem tinha partido com a ideia generalizada de não voltar, de morrer em Angola) de qualquer forma, o regresso dos zombo foi sendo protelado por causa dos conflitos armados. Foi muito complicado. Foi‑o, muito menos, para os oportunistas, para aqueles que lá como cá, nunca fizeram nada. Foi‑lhes fácil aproveitar as circunstâncias, arvorarem‑se em patriotas de gema e solicitarem, nessa base, os direitos de combatentes do lado vencido. Não foi fácil a opção pelo regresso, para as famílias com filhos jovens, quer dum sexo quer do outro que estudavam em Kinshasa, para não falar em outras cidades ou até pequenos aglomerados populacionais.
No entanto, existem organizações internacionais para dar apoio aos refugiados, que envolvem quantias e recursos humanos impressionantes. Contam com décadas de experiência, como é o caso da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), em todo o mundo que, neste momento, tem como alto‑comissário um português, António Guterres. Um dos problemas levantados para a ajuda às populações é: Como fazer o repatriamento voluntário? Esta nossa dissertação não está dirigida para esta questão, mas deixamos aqui uma breve reflexão.
Durante um dos contactos que tivemos com as comerciantes das praças zombo (são as célebres ‘mamãs’ que, do nada fazem tudo o seu sofrimento pela sobrevivência é tremendo) nos arredores da cidade do Uíje, à pergunta feita a uma mamã – ‘Porque só vendia carvão?’ – a ‘comerciante’ respondeu:
A minha família está no Inkisi (Bas Kongo), o sofrimento era muito, a minha família estava sempre a dizer: ‘quando é que tu voltas na terra? ‘ Então eu viajei para a fronteira e pedi para regressar na minha terra, fui em Makela do Zombo, na ACNUR e pedi para entrar, mas eles falaram que não íamos encontrar comida, tínhamos que fazer casa e que havia muitas minas. Apesar disso tudo, encontrámos algum apoio nas ONG (Organizações não Governamentais) que trataram de mim e dos meus filhos. Estou sozinha com oito filhos, todos ainda crianças (a mais velha ficou em casa a tomar conta dos irmãos, eu trouxe estes dois mais pequenos). Sou viúva, não consigo fazer mais nada, senão ir na mata, apanhar lenha, fazer carvão e vender na porta de casa e no mercado.
Muitos dos que regressaram não possuem, ainda hoje, documentos de identidade. A longa guerra destruiu os arquivos de registo de nascimento da maior parte do país. O estado angolano percebeu que era vital para as pessoas adquirirem a documentação, assim começariam a movimentar‑se sem medo. Houve casos em que os livros de registo se esgotaram, houve muitos casos de extorsão, de abuso sexual, por parte dos militares e funcionários encarregados do controlo exigido. Os documentos continuam a ser fornecidos, na base de que a pessoa é de facto angolana, sendo‑lhe então fornecido o bilhete de identidade e cédula de identidade às crianças. Os velhos soba Makanda, os mfumu a vata e mfumu a nsi continuam a ser preponderantes nestas situações, especialmente aqueles que têm ainda a prerrogativa de redistribuir as terras ou de as conceder. Em Maquela do Zombo, os militares fizeram (oficialmente desconhecem‑se os argumentos) rusgas, com a finalidade de travar o tráfico de diamantes, numa operação que ficou conhecida como Operação Brilhante; expulsou doze mil garimpeiros, especialmente de origem Tutsi e Hutu, famosos pela sua técnica de garimpo e que vinham reivindicando a cidadania angolana. Escusado será dizer que muitos dos diamantes só mudaram de mãos.3
Quantas vezes os pais se teriam interrogado, se retornariam ou não? Como iriam reorganizar a sua vida? Que empregos encontrariam nas terras da sua origem? Como seria possível habituarem‑se ao novo sistema marxista?
Como iriam prescindir das suas autoridades tradicionais para se submeterem aos novos comissários políticos? Ouvimos, em 1991, aquando da nossa penúltima estada em Angola, este rosário de perguntas, muitas vezes, feitas de forma angustiante.
O Estado português tinha deixado bases precárias, para os primeiros anos de escola entre os zombo, embora as missões católicas e protestantes se tivessem empenhado na diminuição deste problema. As raparigas sempre sofreram o estigma de serem mulheres. Os rapazes podiam estudar, elas não, eram necessárias, em casa, para tomar conta dos irmãos mais novos.
Agora, as populações instaladas ainda têm que viver o flagelo das minas anti‑pessoal espalhadas por toda a parte. As crianças, especialmente, saem de casa de manhã à procura de bananas, mangas, abacates, entre outros frutos. Apesar de já informadas e de verem os vizinhos estropiados, continuam a deambular pela vizinhança da aldeia. De repente, o inevitável acontece e fica física e psicologicamente prejudicada para toda a vida. As organizações internacionais reconhecem o drama, sabem que as minas são uma das principais ameaças à integridade física das pessoas e às suas operações de repatriamento. Todos os refugiados são avisados e treinados acerca dos riscos das minas (e já o tinham sido, quando iniciaram o seu regresso) pelo serviço da ACNUR de Maquela do Zombo. O que hão‑de fazer face aos regressados que querem voltar ao seu chão (nsi) perigosamente registado como minado? No final de contas, a necessidade desse chão parece ser mais imperiosa do que o impedimento das minas.
Agora o mais importante não é o regresso, é a reintegração, muito especialmente para as mulheres que, a todo o momento, são vítimas da continuada opressão e brutalidade dos homens.
A Escola do Padre Mariano
 
A primeira vez que ouvimos falar do padre Mariano Rampazzo, responsável pela missão católica de Maquela do Zombo, na paróquia de Santo António, foi em terras do Negage, em 2005. Foi através de outro padre católico, que não conseguia compreender como era possível estar, há quase trinta anos, em Maquela do Zombo e ainda estar vivo. Como é que, aparentemente, sem nada para dar, tinha ajudado tanta gente? Como tinha ajudado os zombo, a serem umas vezes da FNLA, outras do MPLA e ainda, outras tantas, da UNITA?
Acerca deste assunto, D. Francisco, bispo do Uije, disse‑nos, um dia: “Às vezes, para irmos onde Deus quer, temos de ir a cavalo no Diabo”. Por isso, não nos admiramos dos estratagemas operacionais, utilizados, de vez em quando, pelo padre Mariano. Não fomos apanhados de surpresa quando nos disseram que aquele homem, sem nada de seu, a não ser a veste de missionário, sem benefício algum particular, a não ser uma fé imensa para dar pão e paz às populações, chegou a transaccionar os melhores e mais rentáveis bens do mercado zombo (marfins, entre outros). Em boa verdade, sempre ouvi dizer: “Quem não tem cão, caça com gato.” Parece‑nos mais útil, empregar a frase deste modo: “Quem não tem cão come o gato.”, pela simples razão, de nunca termos visto ou sequer ouvido dizer, que também se vai à caça com gato. O mais que pode acontecer é que a fome aperte muito e se coma o gato. Teria sido isso que o sacrificado padre Mariano poderá ter feito alguma vez.
 
A última notícia que tivemos dele foi, já este ano de 2007. Devemos a informação a Tito Osvaldo Baião. Só os que viveram e vivem, por aquelas terras em tempo de guerra, avaliam estes gloriosos malucos que empreenderam uma inconcebível viagem. Vale a pena registar o seu depoimento, no livro Luanda‑Porto 2003 (2005: 19).4
“A Missão Católica de Maquela do Zombo tem também actualmente uma escola. «Como professor que sou», diz o Tito, «chocou‑me ver aqueles jovens, entre os 7 e os 15 anos, que ali estudavam com um único livro e um quadro negro onde o Padre Mariano e os demais professores diariamente escreviam o conteúdo das aulas e do livro» – exemplar único para seu uso; os alunos vão transcrevendo para o caderno, o que é escrito no quadro. É necessária uma grande vontade e uma grande esperança por parte dos jovens que ali se deslocam, alguns vindos de bem longe, para estudarem nestas condições. Recordamos a nossa estadia em Sosse onde vimos jovens que levavam uma enxada numa mão e na outra o banco e a sacola com caderno e lápis. Às condições deploráveis para estudar junta‑se o perigo das minas terrestres ao realizar os trabalhos agrícolas. Os dados referentes ao ano de 2002 registam no território angolano um acidente de dois em dois dias daí o triste recorde deste ser o país do mundo com maior número de amputados.
 
Estes ‘malucos motoqueiros’ registaram, no seu documento, que o único lugar onde havia protecção e condições para pernoitar era na missão católica (2003), que funcionou como porto de abrigo, ao longo da guerra, desde a independência até ao fim.
“ (…) A região mudou diversas vezes de poder, disputado pelo MPLA e pela UNITA. Nestas mudanças, a Missão conseguiu proteger as populações, que fugiam das suas aldeias correndo todos os perigos, nomeadamente das minas.
O padre Mariano é um herói incógnito. Recordou momentos tenebrosos que viveu. Chegou a ajoelhar‑se perante um general da UNITA pedindo que a sua Missão não fosse destruída. Ouviu pelo rádio (que captava as ondas na frequência em que comunicavam as forças do MPLA), as ordens dadas no sentido de bombardearem a missão; os dois pilotos brasileiros, mercenários ao serviço do exército angolano, recusaram obedecer às ordens, dizendo que “foram contratados para fazer a guerra e não para chacinar as populações civis”. Dizia o padre Mariano, na sua grande Fé, que tinha sido um milagre o que tinha acontecido: terem sido poupados”.5
Face às anteriores descrições, imagine‑se o que seria procurar água e comida para que, os milhares de refugiados que ali eram acolhidos, sobrevivessem. O padre Mariano ajudava também as equipas de desminagem da ONU a tentar inutilizar as minas escondidas, no solo, especialmente as colocadas entre o aeroporto de Maquela e a estrada que liga o posto fronteiriço (desactivado) de Banza Sosso e a fronteira. É com ele que os técnicos, seja de que área for, contam para prosseguirem no seu trabalho.
Cabe aqui registar que o hospital local está dirigido por duas Irmãs da Misericórdia. Como superiora, a Irmã Annunziatina (Giuseppina) Loro e a Irmã Angelina Sartori, verdadeiras especialistas em ortopedia, para além de outras especialidades médicas. Aliás, convém registar que as irmãs desta congregação estão a ajudar as populações da zona, desde finais do século XIX. Durante o tempo colonial, especialmente nos últimos quinze anos, conhecemo‑las muito bem, colaborámos inclusive na satisfação dos seus pedidos de ajuda humanitária face aos dramas das mulheres e meninas zombo.
Agora, compreendemos algumas situações que chegaram ao nosso conhecimento, na cidade do Uíje, no que se refere às tremendas e delicadas situações de confronto. Referimo‑nos ao pormenor do padre Mariano poder ouvir, através do seu transmissor‑receptor, as notícias, na frequência em que comunicavam as forças do MPLA.
Apesar de tudo o que ficou dito, existe uma vontade de ferro da parte dos missionários das mais variadas confissões religiosas. Grandes sacrifícios estão dispostos a fazer, levados pelos seus ideais de propagação de fé e lutam afincadamente para assegurar o mínimo dos níveis qualitativos, movidos por razões de prestígio para cada congregação, em particular, e pelo desejo de se aproximarem dos padrões europeus equiparados. Estes missionários apenas podem contar com a sua própria dedicação, com diminutas verbas, com subsídios de organismos oficiais e alguns particulares que oferecem o que podem como donativos. Finalmente, resta notar que as contribuições das próprias famílias dos alunos são insignificantes e muito irregulares.
O Aparente Caos Zombo
e a sua Camuflada Organização
O que parece uma anarquia, um desastre completo, tem leis muito próprias. Só os actores principais desta secular forma de agir, podem reconhecer, na aparente desordem, a organização do caos e como este funciona. Enquadra‑se, neste contexto, a privatização em curso de milhares de pequenas e médias empresas, na área da distribuição e de alimentação, especialmente nas capitais de distrito.
É sabido que as acções de controle rodoviário da UPA, do MPLA ou da UNITA, até 2002 (fim da guerra), eram constituídas, muitas vezes, por barreiras militares que, nunca ou quase nunca, (desde 1961) deixaram de dificultar a penosa e demorada passagem de caravanas de transportes comerciais privados (ou mesmo viaturas isoladas), relativamente à rota Uíje‑Kinshassa‑Uíje.
 
Durante os quinze anos de guerra colonial (1961 a 1975), percorremos semanalmente muitas centenas de quilómetros, pelas estradas da fronteira norte de Angola. Nessa altura, os empregados zombo, duma forma muito inteligente, sempre nos informaram dos perigos. Alguns deles são agora abastados comerciantes com casas nos pólos de atracção das cidades do Uíje, Kinshasa e Luanda e as perguntas a que os militares dos postos de controlo sujeitam os transportadores privados são invariavelmente as mesmas: “Para quem trabalhas, donde vens e a que género de negócio te dedicas?” e das respostas, depende a gasosa6 a cobrar. Quase sempre, a livre passagem está condicionada ao "pagamento" com alguma mercadoria. Se houver resistência da parte do transportador, poderá estar certamente iminente a prisão da viatura com a respectiva mercadoria. As mamãs que acompanham estas viaturas, com muita regularidade, têm que se envolver com os militares. É mais ou menos desta forma que funcionam as leis do mercado rodoviário.
As ‘boas maneiras’ zombo têm, neste contexto, uma importância primacial. Permitem aliviar as tensões das negociações dos interesses imediatos dos intervenientes. Este cerimonial de relações institucionais, sociais e comerciais, para outros muito mais embaraçosos, tem para os zombo, normalmente, um desfecho consensual. Pelo que fica dito, poder‑se‑ão compreender as complexas relações de pequenos a grandes empresários (alguns deles notáveis locais) com os chefes das barreiras militares da UNITA e do MPLA, até 2002.
O que finalmente se pode questionar é: quando é que a paz tão desejada e há tão pouco tempo conseguida, irá permitir a emergência de uma nova política governamental (que tenha em conta os interesses dos notáveis locais) e crie condições para a abolição das ‘fronteiras internas’? Quanto tempo ainda será necessário para se verificar a entrada em vigor de medidas governamentais eficazes que levem à estabilização das comunicações e ao intercâmbio comercial normal, entre as populações do interior de Angola? Verdade seja dita que, pouco a pouco (curiosamente, conforme as estradas principais vão sendo reconstruídas), este tipo de ‘organizações’ vai‑se internando pelo meio rural ou, então, migra para o caos dos antigos muceques, como por exemplo, os bairros Rangel ou Palanca de Luanda, passando a exercer forte pressão nos mercados informais.
Quem assistiu, durante algum tempo, à incorporação de crianças na luta armada, sabe que se tornaram perigosamente violentas, nenhuma atitude política é mais mortífera do que a de armar crianças. Os impulsos que as levam a enfurecer‑se são muito rápidos e isso já aconteceu, demasiadas vezes, em Angola.
A privatização da violência tem tido, por consequência, em certas localidades, "uma limpeza social e étnica", com lucro, para alguns protagonistas económicos. O mercado de viaturas roubadas continua a movimentar somas enormes, é teatro de repetidos assassinatos. Os compradores são assassinados, logo após terem pago os veículos e, portanto, quando estes ainda não estão inscritos em seu nome. Estes acontecimentos põem em evidência os grupos armados organizados, num sector do mercado informal e altamente lucrativo.
Apesar do nítido abrandamento das hostilidades, após o fim da guerra, o estado caótico das instituições parece ser um instrumento de promoção social e de enriquecimento pessoal.
Num país onde as crianças já aprenderam todos os jogos da guerra dos adultos e vão para as lavras em fila indiana para fugirem às minas, a desconfiança é enorme. O ano de 1992 foi o palco do reinício de uma fase brutal da guerra. Trouxe demasiadas mortes, tornando difícil o restabelecimento do clima de confiança mesmo dentro das pequenas aldeias. Cabe neste momento aos governantes e cúpulas militares a enorme responsabilidade de manterem a paz, caso contrário, o descontrole do tecido social e económico será inevitável.
Planos para o relançamento do desenvolvimento económico de Angola existem e têm custado fortunas abissais. Têm de ser acompanhados, com todo o cuidado e empenho. Portugal terá aqui um papel relevante a desempenhar, especialmente no que concerne à educação, agricultura e saúde. Angola é um país rico/pobre, onde morrem, por dia, cem crianças com menos de cinco anos de idade. Para resgatar as populações é preciso que o mundo rural de Angola recupere os seus habitantes, que os meios de comunicação liguem as suas populações, que as diferentes etnias dialoguem. É necessário que se recomece, nas pequenas povoações e vilas, a construção das tradicionais casas de adobe, mesmo que cobertas a capim e se atenda ao indispensável aprovisionamento de água potável. Muito trabalho ainda será feito a troco de comida, até que, pouco a pouco, o ´mato’ recomece a enviar os seus produtos para as grandes cidades.
As mulheres zombo não podem, ou melhor, não deverão ser subestimadas em toda e qualquer negociação mercantil deste género pois por elas passou sempre o controle do apaziguamento e também o da subversão das barreiras militares, políticas e mercantis dominantes.

 

Fim da 1° parte.

 

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