Os Bacongos na Independência e o "Tempo Escasso do Paraíso" 2° Parte

Publié le par Angola-Inteligente Ao servoço do povo Angolano

A expressão Zombo aqui é sinonimo de Bakongo... O autor descreve o seu ponto de vista e o ponto de vista colonial, que na sua maioria eram errados, sobre as etnias africanas, já que apoiavam-se em relatórios administrativos feitos por militares e espiões portugueses. A falta de estudos sérios (pesquisas e trabalho cientifico sobre as etnias Bantus) justifica o erro.

  
                                                                     
 
 
 Professor Doutor José Carlos de Oliveira*
 
 
A Comerciante das Praças,
no Comércio Tradicional Zombo
 
As mamãs de hoje são o reflexo das ancestrais protagonistas dos nzandu ou praças de mercado e continuam a ser o elemento principal da compra e venda, não só entre os zombo, mas em toda a África negra. Nestes locais, exercitam diariamente o seu pendor ancestral para o ‘negócio’, aproveitando o tempo para colocar em dia as suas relações familiares, económicas, culturais e até políticas, no âmbito da solidariedade da família extensa.
O crescimento económico dos zombo depende fundamentalmente do seu espírito de iniciativa e parece ser a característica da figura familiar das mamãs, ‘mães‑galinha’, que contribuirá para tornar mais dependentes e ociosos os homens, dificultando o seu desenvolvimento face à idade adulta, acabando estes por sobrecarregá‑las desumanamente. O seu espírito de iniciativa fortemente vincado, influencia o ‘carinho’ que o homem kongo tem pela sua mamã. Pode parecer desajustada a opinião, mas D. Francisco da Mata Mourisca (ainda hoje – 2007 – bispo do Uíje) descreve assim as mulheres comerciantes das praças, face ao seu papel na família zombo e angolana em geral “O papel da mulher no comércio de Angola é de vital relevância…É que em Angola como no resto da África Ocidental, cerca de 80% dos produtos agrícolas são comercializados pelas mulheres7.
A comida sempre pronta que os homens encontram em casa (o lume sempre aceso) é uma constatação. É óptimo, mas a pressão sobre a mulher é demasiado forte para corpos que foram tão fragilizados pela fome e pela guerra, para que tanta gente lhes solicite permanentemente o auxílio alimentar. Presentemente, a pressão é de tal modo violenta que se vê obrigada a usar de um esquema para se desprender dos filhos, designadamente os da parte do marido, os conhecidos meninos feiticeiros. Esta figura é muito frequente em todos os países de África que foram avassalados durante décadas por guerras intensas. Poderíamos entrar nos pormenores desta miséria, mas não cabe aqui alongar a questão. Diremos só que a guerra colocou a mulher angolana de 20, 30, 40 e 50 anos, na infeliz situação de ter repetidamente filhos de combatentes da FNLA UNITA e MPLA. Vê‑se então na necessidade trabalhar 12 a 18 horas e na ânsia de sobreviver, muitas vezes como pequena comerciante de biscates, termo que se deverá entender como ‘pequenos serviços prestados’, gasta grande parte do seu tempo diário a correr de lá para cá numa ânsia de resolver os problemas do dia‑a‑dia.
O sistema tradicional de parentesco ajuda, e muito, à situação. Ou melhor, as vantagens inerentes à integração na sua família extensa, alarga desmedidamente os seus deveres de solidariedade, quantas vezes em detrimento dos seus interesses próprios. Certamente que as mudanças operadas nas últimas décadas, e especialmente as geradas pelos violentos conflitos armados, ocasionaram grandes modificações no sistema familiar que entendia que os bens e o trabalho deviam ser colocados à disposição da linhagem, dando‑lhes direito à hospitalidade, a constantes oferendas à prestação de trabalho em regime de reciprocidade, ao auxílio em roupas, alimentos ou dinheiro, a convites para festividades e celebrações, etc..
Tendo‑se destruído as estruturas e as técnicas para armazenagem de alimentos por longos períodos, é natural que o sistema dos valores de solidariedade alimentar se tivesse alterado. Embora as obrigações teóricas recaíssem e ainda recaiam sobre o guardião da matrilinhagem, teoricamente, continua a ter o dever moral de velar pelos seus tutelados e tuteladas, em todas e quaisquer circunstâncias, como por exemplo no nascimento e na morte, no casamento e no divórcio, nos êxitos e nos fracassos, na miséria e na abundância, chegando inclusive a sentir‑se responsável pelas dívidas dos seus tutelados. Na prática toda a protecção social recai sobre as mamãs que fazem o impossível por manter a paz familiar através da sua incomensurável eficácia de ecónomas, a que acrescentam uma resistência física e psicológica sem paralelo na família.
As mamãs encontram, no comércio familiar e na pequena indústria na fabricação de pão e de outros processos afins da indústria alimentar, tal como na fabricação do carvão, em casa e nos mercados, a parte mais importante do seu mecanismo económico de sobrevivência. Começam por exercer específicas funções subsidiárias no mercado, como negociantes ocasionais, porém, o seu objectivo é criar o seu próprio negócio. Conhecedoras dos produtos sazonais e das suas flutuações de preços, procuram tirar o melhor proveito deste saber. É este saber que as conduz ao sucesso mercantil, acabando muitas, já no fim da vida, com uma pequenina banca a vender um só produto (por exemplo tomates ou bananas) porque não concebem a vida sem o seu pé‑de‑meia. Outra nota curiosa, contribuem para o fenómeno sociológico do mercado, juntam‑se em aglomerados informais mantendo‑se afastadas dos homens, o suficiente para os controlarem, e este controle tem a ver com o poderem fazer o seu tal pé‑de‑meia sem que eles disso se apercebam. Nunca sabem quando eles partem para não voltarem mais. Especializam‑se, por exemplo, na produção de refeições que os homens acabam necessariamente por lhas comprar na praça do mercado, escutando assim parte dos seus segredos.
 
A constatação de uma boa parte se ter confrontado muito cedo com a viuvez e outra parte já não poder contar com possíveis relacionamentos maritais passíveis de dar estabilidade aos filhos, faz com que venham ao de cima forças de que não suspeitavam, conseguindo frequentemente rasgos de liderança para os esquemas mercantis ao seu alcance. O mesmo acontece com as mulheres sós. Estas oferecem a sua ajuda às anteriores viúvas e mulheres casadas.
Além de serem o suporte familiar, constituem‑se informalmente em associações informais. Os maridos deixaram, há muito, de ser pedreiros ou carpinteiros (profissões que aprenderam na época colonial). Estão velhos antes do tempo. Enquanto as mulheres trabalham, os homens olham‑nas com estranheza e indiferença, recostados em suas cadeiras de braços e pés assentes em pequenos bancos. A forte e violenta formação pragmática que estas mulheres têm, através de uma economia de guerra, há muito as fizeram esquecer os comportamentos femininos tradicionalmente apaziguadores. Com as forças que lhes restam, tratam da família, em casa, e deslocam‑se ao mercado, como há séculos o vêm fazendo, tal como nos tempos da colónia, no trabalho compelido como mulheres de contratados.
 
O processo que as obriga a atingir a idade adulta, sujeita‑as a diversos ritos de passagem ao longo da vida. Para uma melhor compreensão do fenómeno, organizámos, operacionalmente, os diferentes patamares do processo vivencial em ritos de passagem por classes etárias e subsequente desempenho mercantil. Este nosso conceito operacional não invalida outro tipo de projecções sobre o mesmo assunto. Trata‑se, como referimos, de uma opção operacional do estudo à qual nos adaptámos:
– 1.º A mulher, hoje sexagenária, continua ligada a preceitos do passado colonial e também da independência nacional. Acerca desta realidade, será interessante, lembrar que, tal como aconteceu durante séculos, cumpre os rituais de puberdade e do casamento como preceitos exigidos pelos seus ancestrais familiares. Apesar disso é suficientemente flexível para entender, muito pragmaticamente, os novos tempos, o novo espaço familiar onde se encontra inserida e onde ainda se sente útil para ter ‘sucesso’ na sua banca do nzandu que visita, comprando e vendendo para ajudar ao ‘mealheiro’ da chefe de família. A esmagadora maioria já se esqueceu do vocabulário da língua portuguesa, fala e raciocina em kikongo, lingala, e desde 1975, está atenta ao kimbundo, como língua afim do seu kikongo operacional. Viveu demasiado os tempos difíceis de participação na luta armada ao lado dos seus homens da UPA, do MPLA e da UNITA.
 
– 2.º A verdadeira chefe da família, (no nosso entender), é aquela que consegue a leitura do passado e dele se serve para consertar o presente precário, ou seja, a mulher que ronda os quarenta anos. A sua maior característica continua a ser a de saber equacionar o problema da instabilidade familiar resultante dos parcos meios de que dispõe e com eles orientar o seu lar. Adapta‑se ligeira, às novas realidades. Com o casamento tradicional a que acrescentou por vezes o católico ou protestante, continua sendo, com o seu comércio particular, o suporte da família embora subordinada ao sistema ancestral. A sua idade indicia um breve e infantil passado colonial a que junta a árdua ajuda prestada ao serviço da independência nacional. Depara‑se com uma vida vivida na companhia de alguns companheiros. Todos eles inimigos uns dos outros e muitas vezes da mesma família consanguínea. Já foram educadas na cultura do “esquema e da gasosa”, onde vale tudo para conquistar um lugar ao sol. Têm sempre presentes as formas por elas concebidas para fugir ao controlo dos homens, no que se refere aos seus parquíssimos ganhos, uma vez que aqueles se tornaram, não só inúteis como inoperativos, no que concerne à receita familiar.
 
– 3.º Ela e a mãe (a anterior) viram‑se a braços com gravíssimos problemas, como por exemplo em 2005 com o vírus de Marbourg e em 2006 com o surto de cólera no distrito do Uíje. Redobram os cuidados básicos com a saúde, área onde os preceitos tradicionais têm uma grande importância e o problema da água para a alimentação e higiene caseira, surge de uma forma capital, tornando‑se então um lucrativo negócio.
Disseram‑nos algumas vezes: vai passar depressa, afinal já morremos muitos com a guerra, a doença do Margourg e a cólera não vão matar mais. Enfim, não será esta a forma mais eficaz de aceitar a situação? E dela partir para encarar a realidade de ver os vizinhos a morrer, as suas famílias a ser atingidas e encarar de frente a vida?
São estas duas mamãs, as que trabalham nas lavras, que com maior frequência (quase diária) vendem nas praças, que cuidam dos filhos, alguns ainda de tenra idade que estão mais preparadas para a mudança. Mudança de determinados processos culturais ancestrais e que possibilitam uma nova forma, mais positiva, de encarar o futuro.
Estas mulheres são as mães novas, porque as mães mais velhas são as de sessenta anos (as bisavós). Ambas estranham, e até fazem mau juízo sobre as poucas brancas jovens com quem contactam e lhes dizem não terem filhos, (referem‑se às operacionais das ONG), não entendem que estas brancas, só tenham primos e sobrinhos. Não entendem que estas brancas venham para o Uíje solteiras, com a principal razão de obter meios financeiros que as ajudem a ter uma casa e só depois então pensarem em ter filhos. Não entendem que as brancas só queiram ter um ou dois filhos no máximo. Continuam a não entender como é que duas ou três mulheres vivem numa casa com um homem (referem‑se aos voluntários das ONG) e não tenham relações sexuais com ele, uma vez que estão na idade e longe de casa com um homem por perto.
Estas mamãs quando começam a ter filhos têm que contar com aqueles que vão morrer. Uma delas, em 2005 disse‑nos: sou mãe de nove partos. Na verdade, só sete estavam vivos, mas para ela o importante foi o facto de engravidar nove vezes e não quantos filhos estavam vivos. E isto relaciona‑se com as muitas crianças que às vezes vivem com elas e não são filhas do mesmo pai. Acerca desta situação, que algumas não aceitam, uma delas disse‑nos: temos que viver mesmo assim, os nossos homens são mesmo assim.
E este viver, subjectivamente ‘mesmo assim’, foi‑nos confirmado com as informações que obtivemos (2005) de pessoal de organizações humanitárias, de algumas instituições, órgãos do governo (Ministério da Agricultura) e dos nossos informadores‑chave. Acrescentemos que desde o final da guerra (2002) a situação de grande risco das populações tende, visivelmente, a melhorar especialmente porque as vias de comunicação, pouco a pouco, vão permitindo a passagem de camiões de transporte de mercadorias. Infelizmente Maquela do Zombo continua a ter graves problemas no acesso rodoviário. As populações aproveitam então a estação seca para passar de uma cidade para outra apesar do receio das minas colocadas nas estradas e ainda não detectadas.
 
Estas populações vivem essencialmente da agricultura e das consequentes trocas. A partir de Setembro, com o início das chuvas, já as mamãs procedem regularmente às sementeiras que se estendem a Janeiro com especial relevância para a cultura do amendoim e do feijão por se tratar de culturas tradicionalmente de rendimento, sendo daqui que retiram parte do seu proveito nos mercados. No caso da cultura da mandioca, base do seu sustento, já se notam muitos progressos que aliás estão bem patentes na primeira fotografia. Uma outra cultura e fonte de rendimento das mamãs é a venda de banana, que constitui também uma base da sua alimentação. Em outros contextos que não o de Maquela do Zombo, a banana deixa de ser um recurso precário, para ser um lucrativo negócio.
Os preços dos principais produtos transaccionados começam a estabilizar, como por exemplo a fuba de bombó que provém essencialmente dos mercados do Uíje, Songo, Kangola e Negage8. Se contudo aparece alguma chuva, facto que conduz à quebra do processamento da mandioca, é sabido que as mamãs tratam imediatamente de inflacionar o produto. Esta transformação da mandioca em fuba é realizada semanalmente. Tem a ver especialmente com agregados dos residentes e retornados (da República Democrática do Congo) com mais de duas campanhas agrícolas realizadas.
No espaço do quintal de casa voltaram a criar galináceos em quantidade suficiente. Porém, as famílias estão ainda muito carenciadas da tradicional criação de caprinos e suínos, negócio do foro dos homens. Nas suas frequentes deslocações semanais à procura de alimentos de que carecem, levam geralmente pequenas quantidades da sua auto‑produção para venda ou troca, embora estas transacções resultem em receitas muito limitadas. Todavia conseguem produzir o suficiente para a sua alimentação.
Algumas mamãs menos afortunadas, dedicam o seu dia de trabalho àquilo a que chamam biscates, como por exemplo à produção do carvão. Quando se levantam por volta das 05H00 da manhã, mal enxergam um palmo à frente do nariz, devido à cerrada neblina matinal, partem para as suas pequenas lavras (hortas) a fim de tratarem do seu amanho e no regresso trazem lenha que serve, não só para cozinhar os alimentos, mas também para a produção de carvão. Tudo isto coadjuvadas pelas filhas adolescentes que tomam conta dos irmãos mais novos, ajudam a mãe nos afazeres do lar e especialmente na lavagem da roupa da família, fardo bem pesado para estas mulheres ainda meninas.
– 4.º Finalmente, chega‑se ao grupo das catorzinhas (leia‑se adolescentes). A este grupo vamos dedicar especial atenção. Levantar‑se às 5 da manhã, ir com a mãe buscar o seu balde de água à cabeça, todos os dias, sem um ai de lamento é imprescindível. Ir com as mamãs e com elas dividir o trabalho e tudo isto com os homens da casa a conversarem no quintal é muito árduo. As mulheres novas já não aceitam esta indiferença dos homens. Lá porque nasceram com um nome de linhagem reconhecida entre os seus, não trouxeram riqueza que ateste a sua ascendência; afinal e frequentemente, a única herança que o pai lhes deixou foi o nome da família. À luz da cultura kongo estas atitudes dos homens, aparentemente, nada têm de reprovável. Curiosamente, na Europa, especialmente no meio rural, ainda se observam algumas similitudes. Numa conversa a que assistimos em 2005, um alto responsável do Ministério da Cultura angolana ouvia constrangido um seu conterrâneo lamentar‑se que a mulher não o amava ao que muito secamente aquele respondeu “não tens vergonha? Quem tem que nos amar são as mulheres, tu não tens que te lastimar”.
Dizíamos então que a catorzinha enfia as suas chinelas de borracha sintética nos dedos dos pés e percebendo as violentas dificuldades da mãe e esforça‑se por dar a sua preciosa colaboração. Os bens de sua mãe são às vezes duas ou três bacias que comportam os utensílios da cozinha, a ferramenta que lhe garante o pão do dia‑a‑dia. No fundo, só transportam o medo da vida que até 2002 viveram. Ainda decorrerão muitos anos a dormirem em sobressalto ouvindo os sons dos tiros das metralhadoras e dos obuses. Por isso, desejam muito um homem por perto, provavelmente não para as proteger (têm muito menos medo deles que dos outros) mas mais para avisar os intrusos que o lugar em casa está ocupado.
Não se lastimam por os verem sentados, mas algumas destas mamãs enchem‑se de coragem, rangem os dentes, como fazem os homens e partem, abandonam tudo, umas desesperadas vão sozinhas, outras ainda com forças que vão buscar não se sabe onde, deixam marido que tem patrão e está bem como está. Pegam na filha adolescente e nos filhos pequenos e partem para longe, para os subúrbios das grandes cidades, aceitando qualquer biscate por onde possam recomeçar a viver. São ‘adoptadas’ por outras mulheres do mesmo subgrupo étnico. Muitas vezes começam por transportar água, escondendo que estão a levá‑la para outrem. Se questionadas dizem simplesmente que a vida está difícil, que quem tem posses pode pagar a quem as sirva. Começar por ter comida é muito importante. Sonham com a vida e com o tipo de vestuário que algumas mulheres novas usam, passeando‑se nos locais mais concorridos pelos homens que ostentam sinais visíveis de riqueza e que mandam os filhos estudar para a Europa. Estas razões de fortuna e de infortúnio, fazem com que as adolescentes comecem a rejeitar vivamente a árdua vida que levam na casa materna e frequentemente o inevitável acontece. Ficam grávidas por esta altura sem disso se aperceberem. Nem sequer se questionam por terem a falta do período menstrual. Passam muito mal, os namorados não aceitam a sua gravidez e até arranjam medicamentos tradicionais para elas abortarem. Esta situação torna‑se aflitiva, obriga‑as a esconderem o facto, que passa despercebido à mãe mas não à avó. Quando o bebé nasce é entregue àquela (à sua mãe). No dizer de uma jovem mãe Só estou com a criança para lhe dar chucha. Diga‑se que os namorados, uma vez passado o susto, acabam por se aproximar do seu filho e gostar da ideia. Então ‘amigam’ e a criança fica em casa da avó materna.
É difícil perceber estas catorzinhas e o seu esquema. O que a seguir dizemos continua a ser o nosso ângulo de visão de observador participante. No Zombo e logo em todo o distrito do Uíje as mulheres são mães muito cedo, engravidam assim que são púberes. Não se pode ajuizar este problema com ligeireza. As catorzinhas aprendem muito cedo a viver de uma forma adulta, sendo frequentemente pressionadas pelos homens e pela família e depois muito simplesmente no seu dizer, aconteceu. Muitas vêem que as relações sexuais servem especialmente como meio de, ao serem mães, terem alguém que no seu dizer ‘me tome conta’. Se umas têm como companheiro o pai da criança, outras nunca mais o vêem e ainda outras nem sequer sabem quem é o pai da criança. Com este cenário o pai acaba por ser o avô, ou seja o Nkaka.
Começa bem cedo o trabalho de casa
As catorzinhas diferenciam‑se das outras mulheres apenas pela irresponsabilidade de criar os filhos. Curiosamente, entendem que o normal é serem assim e se não forem são ‘fora de série’. Durante a nossa estada no Uíje visitamos uma paróquia em dia de festa a convite de um padre católico. O ritmo da Kizomba era a dança‑base. Dança um pouco parada e fortemente sensual. Os jovens não passam sem ela, disse‑nos o pároco, acrescentando que no final da festa ficam somente os jovens. As meninas que na catequese e na escola fogem dos rapazes acabam com alguma frequência por aparecerem grávidas.
É aqui que a falta de uma educação que visa atenuar a grave situação em que vivem os adolescentes se faz sentir. Nas condições que actualmente vivem os zombo, a educação da população feminina, no sentido lato, reveste‑se de importância talvez ainda maior do que da própria população masculina. Apesar da solução dos problemas de desenvolvimento depender em larga medida das mulheres, os progressos realizados em prol da sua educação são visivelmente inferiores aos dos alcançados pelos varões. Algo funciona mal.
Todos os grupos etários das mulheres que acabámos de descrever continuam ligados às tradições e costumes ancestrais. Acrescente‑se o drama do flagelo das guerras de décadas e as diversas estratégias operacionais encontradas para sobreviverem. Estão encontrados suficientes obstáculos ao desenvolvimento económico e ao bem‑estar geral. Haja em vista as inúmeras interdições alimentares (ainda existentes) observadas não só pelas grávidas em relação aos fetos, como também pelas lactantes em relação aos recém‑nascidos. Não restam dúvidas que a estas interdições mágico‑religiosas se aliam a carência de cuidados higiénicos e a ignorância sobre princípios nutritivos que resultam numa elevada mortalidade infantil.
Muitos pais fazem reais sacrifícios para sustentar os filhos varões durante os seus lentos progressos escolares. Mas poucos estão dispostos a realizar os mesmos sacrifícios a favor das filhas. Ponderam que estas casem cedo e por isso não vale a pena estudarem. Além disso, uma boa parte dos pais estão convencidos de que a instrução das filhas lhes diminuirá as oportunidades de conseguirem maridos satisfatórios. De facto, muitos homens não escondem o receio de casarem com mulheres relativamente instruídas alegando que as suas exigências em matéria de vestuário, ornamentos e confortos e, enfim, a sua menor submissão obediência são suficientes obstáculos à realização de um enlace matrimonial. A elevação da educação da população feminina em escala significativa exigirá, por conseguinte, uma transformação radical da atitude dos varões.
Sem dúvida que a menor escolarização das raparigas zombo contribui para o atraso da população feminina em geral. Todavia não é razoável pretender que a maioria dos problemas sociais e económicos com que se debatem os zombo possam ser compreendidos e medidos pelos espíritos imaturos e sem experiência na vida adulta daquelas. Enquanto as mulheres estagnarem, toda a comunidade se verá profundamente afectada no seu desenvolvimento. Os esforços oficiais em matéria de educação terão que tornar‑se muito mais eficazes. Por exemplo, o conhecimento do português no ensino primário é fundamental, é necessário que saibam ler e escrever o suficiente para puderem cumprir com dignidade as duríssimas tarefas que lhes estão designadas.
Conclusão
Olhando retrospectivamente para o que de mais significativo foi transmitido, principalmente àquelas focalizações a que as pessoas são mais sensíveis, pelo contacto directo e participante com os agentes concretos, o mais importante deste processo será, sem dúvida, o esforço que fizemos para compreender, interpretar e analisar dentro do possível, o mundo dos zombo.
Um fio condutor ressalta de todo o discurso: a ideia de que os zombo são comprovadamente um modelo de misto de mercadores e diplomatas. Esta consideração tem sido motivo da nossa maior reflexão e os factos históricos conduziram‑nos sempre à mesma conclusão: os zombo foram, são e continuarão a ser, negociadores de primeira água, nas relações internacionais de Angola, não sendo, por acaso, que têm sido escolhidos para este cargo, ao longo dos tempos, como parte integrante da chave da governação dos povos que constituem o agora Estado Angolano.
Uma palavra agora para as mulheres zombo que não podem, ou melhor, não deverão ser subestimadas, em toda e qualquer negociação familiar e mercantil. Por elas, passará sempre o controle da subversão das barreiras políticas, militares e mercantis. Verificamos ao longo da dissertação, que os zombo sempre tiveram (tendo em conta a sua situação geográfica de povo de fronteira política) uma apetência extraordinária para a aprendizagem de línguas afins e estranhas. Presentemente quase todos os adultos falam fluentemente, para além do kikongo (a sua língua materna) o lingala (uma das línguas oficiais da República Democrática do Kongo) e quando estão na zona de influência dos kimbundo, falam esta língua. Finalmente, as línguas veiculares, respectivamente o francês e o português são presença fundamental.
Por esta última língua se têm vindo a esforçar, denodadamente, os missionários católicos e protestantes uma vez que a sua religião está agora fortemente implantada em toda a Angola no ensino recorrente a adultos ministrado especialmente por catequistas, com influência nas suas aldeias de origem, continua a ser uma excelente aposta de divulgação e aperfeiçoamento da língua portuguesa. Saliente‑se o pessoal especializado das equipas das ONG portuguesas (Organizações Não Governamentais) que tem dedicado muita atenção ao ensino do português.
Mas não nos iludamos, a tendência dos zombo é para preferirem a língua francesa à portuguesa. E porquê? Porque fazendo constantes peregrinações aos mercados abastecedores de Kinshasa e Luanda (como grandes pólos de atracção política e mercantil) acabam por estender as suas viagens até Paris ou Lisboa. Estão consequentemente a desenvolver os seus conhecimentos face a estas duas culturas. Então, sugere‑se aqui, que deverá ser encarada como prioritária a tarefa do constante ataque à velha deficiência que é o ensino do português na iniciação escolar e agora, mais do que nunca. Convêm recordar os grandes sacrifícios feitos pelos professores espalhados pelo interior de Angola, em prol da língua portuguesa durante a colonização, coadjuvados pelos catequistas de então. Sem o ensino básico do português as dificuldades escolares dos jovens zombo serão, no desenvolvimento das suas apetências profissionais e intelectuais muito maiores.
Em nossa opinião, e não somos os únicos a pensar assim, bem pelo contrário, não privilegiamos, para os zombo, o ensino ministrado em bases meramente intelectualizadas, porque ao propagar e defender valores morais e normas de conduta radicalmente diferentes dos seus costumes, fazem‑se brotar conflitos entre os estudantes e o seu ambiente social e familiar, conflitos estes que poderão originar graves desajustamentos emocionais. Os modernos métodos de ensino aplicados, sem privilegiarem o ensino tecnológico, redundariam em fracos e contraproducentes resultados face aos esforços dispendidos. Estamos certos que as crianças zombo escassos proveitos poderiam extrair de programas concebidos para populações evoluídas e urbanizadas, já que se encontram actualmente privadas de qualquer acesso ao uso da leitura, da escrita e da aritmética.
Esse ensino em nada contribuiria para uma mais‑valia dos conhecimentos dos educandos, incentivando‑os a adaptarem‑se a novas tecnologias que levem em consideração a agricultura e a pecuária, que continuam a ser a principal fonte de riqueza da população zombo. Um ensino predominantemente técnico, profissionalizante, poderia corresponder suficientemente às suas necessidades reais. Este conhecido modelo conquistaria a colaboração dos estudantes, nos esforços de modernização, interessando‑os activamente, numa promoção social e económica global, sem que, com isso, sofressem ainda maiores desajustamentos e perturbações.
Esta nossa posição é suportada, por exemplo, pelo Jornal de Angola online que em notícia assinada por Alexa Sonhi de 14/10/2007 refere o seguinte: “A falta de infra‑estruturas como escolas, unidades sanitárias e económicas em perfeitas condições estão a condicionar o desenvolvimento do município de Maquela do Zombo, na província do Uíje…a falta de energia eléctrica e de um sistema de água potável em Maquela do Zombo são outros dos vários problemas que o município enfrenta”. Enfim… é preciso recomeçar tudo de novo.
Na sequência de todo este fio condutor, diremos que os currículos escolares deveriam organizar‑se em torno de pequenos projectos de carácter familiar, de ordem comercial, industrial e agro‑pecuária, de maneira a facilitar a adaptação dos jovens, tanto à economia de mercado como ao emprego de técnicas cuja eficiência e rentabilidade se encontram plenamente asseguradas entre os zombo.
Não desconhecemos que se podem contrapor argumentações de peso que adiantamos na esperança de que fomentem a discussão e a troca de ideias. Que a educação anteriormente proposta, para ser eventualmente útil, não poderá ser iniciada em idades demasiadamente baixas e, além disso, depara‑se com inegáveis dificuldades para se conseguir aplicar na vida prática o que se ensinou.
Presentemente, as instituições escolares do Município de Maquela do Zombo (como de todo interior angolano) não dispõem de capital para adquirir o equipamento moderno, sendo que a solução se encontra estreitamente dependente da eliminação das contrariedades de ordem económica, técnica e social, fora da alçada dos serviços de educação: financiamentos, comercialização, cooperação, investigação, assistência técnica, concessão de terrenos, sobrevivência de tradições e de costumes ancestrais, entre outros aspectos.
Por outro lado, a aplicação deste ensino, com base profissional, além de levantar obstáculos, no respeitante à selecção de alunos para os estudos secundários, poderia minar seriamente as bases de um sistema de educação que deverá ser nacional e integrado. Aumentaria, assim, o fosso já existente entre o mundo rural e o urbano. Finalmente as famílias zombo farão, decerto, algumas reticências a um tipo de ensino que procure deliberadamente "fixar o educando à terra" e que colida frontalmente com os conhecimentos empíricos herdados de gerações anteriores de grandes comerciantes. Será frustrar drasticamente um dos maiores anseios dos zombo: viajar, viajar, (a tal peculiaridade antiga de andar de povo em povo) traindo assim, as suas esperanças e ambições.
O último capítulo da dissertação aponta linhas de orientação para os problemas actuais que poderiam, com muito êxito, ser enfrentados e grandemente diminuídos através de projectos de antropologia aplicada, com o apoio da metodologia de dois autores de projecção internacional. O primeiro, Ernst Friedrich Schumacher (1911‑1977) que com a obra Small is Beautifull 9, ainda percorre o mundo académico e profissional, ao propor‑nos o fomento das tecnologias intermediárias (ou seja, aquelas que ainda estão em uso, embora não sejam fruto da tecnologia actual) que requerem muito menos aplicação de capital e são, ao mesmo tempo, menos exigentes no consumo de matérias‑primas, indo assim ao encontro das possibilidades de aplicação prática às populações zombo. O segundo autor permite‑nos aplicar uma excepcional ferramenta: O Princípio de Peter. Trata‑se de Laurence J. Peter (1989) e a sua forma de nos fazer entender até onde somos úteis: “Numa hierarquia todo o empregado tende a ser promovido, até ao seu nível de incompetência” 10, e mais com a noção da lei dos rendimentos decrescentes, faz‑nos perceber até onde será prudente prosseguir com os nossos intentos de cooperação.
Acrescentaremos que, para o nosso caso concreto, grande parte da nossa atenção deve focalizar as mamãs como pilar básico do desenvolvimento económico zombo. Os homens são, por exemplo, proverbiais especialistas da indústria de vestuário, pois, apesar da sua relutância ancestral de cederem espaço nesta indústria às suas mulheres torna‑se urgente que, de forma suave mas decisiva, lhes permitam dividir o seu tempo entre a indústria mercantil familiar e o trabalho de casa. Os rendimentos conseguidos através desta forma de pensar trarão, de certeza, resultados muito importantes para as suas famílias. É urgente dar oportunidade a que as mamãs se realizem criativamente e permitir aos filhos deste povo que pisem o seu chão com firmeza.
Com estas realidades terminamos o nosso estudo, fruto de muito e penoso trabalho, às vezes, com risco da própria vida durante as duas viagens de 1991 e 2005 ao Norte de Angola.
Congratulamo‑nos por nos terem permitido e ajudado a avançar com hipóteses de trabalho, capazes de harmonizar a elevação cultural, social e económica das mais novas gerações zombo.

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