Mbanza-Kongo e a sua historia cultural e religiosa

Publié le par Angola-Inteligente

 

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Portugal, como conquistador e potência colonial de Angola, espalhou por este  território uma diversidade de monumentos simbolizando os três C que caracterizaram a colonização: C como civilização simbolizado pelas (Igrejas), C como comércio simbolizado pela arquitectura civil (palácios, casas comercias e residências) e C como colonização simbolizado pela construção militar (fortalezas). Alguns destes monumentos eram protegidos pela legislação colonial, pois eram símbolo de afirmação da força de Portugal em terra angolana. Nessa ordem de pensamento, podemos ler, no decreto colonial n° 161 de 25 de Maio de 1922, o seguinte: «Cambambe, Massangano, Muxima, Calumbu, São Salvador do Congo, Oeiras e tantas outras ruínas são ainda uma afirmação da nossa força...», fim de citação.

Se, por um lado, Portugal orgulha-se de perpetuar em terras estrangeiras monumentos que simbolizam a sua presença, por outro lado, os mesmos monumentos têm sido vistos e interpretados pêlos nativos das respectivas terras como símbolos da opressão. Contudo, esses monumentos continuam a merecer uma atenção particular, pois fazem parte da nossa história e do nosso património imóvel.

Um dos exemplos que ilustram nitidamente as políticas portuguesas e relações multisseculares entre Angola e Portugal é a cidade de Mbanza Kongo centro de difusão e irradiação do cristianismo na África central desde o século XV.

No quadro do seu programa de preservação do património cultural, o Ministério da Cultura da República de Angola concebeu o projecto de Mbanza Kongo que tem como finalidades:

Aprofundar os conhecimentos sobre a história do reino do Kongo, em geral, e de Mbanza Kongo, em particular, baseando-se na diversidade de documentos existentes.
Propor ao comité do Património Mundial a inscrição de Mbanza Koongo na Lista de Património Mundial.
Transformar Mbanza Kongo numa cidade turística.
Criar em Mbanza Kongo um Centro de Investigação sobre a Área Cultural Kongo.

Embora o reino do Kongo fosse partilhado por 4 países: República de Angola, Democrática do Congo, Congo Brazzaville e uma parte do sul da República do Gabão. O projecto é nacional, é da República de Angola, contudo os países atrás referidos estão informados mas não institucionalmente.

A civilização Kongo nasceu à beira do rio Lueji, sobre um impressionante planalto montanhoso. Sob o reinado de D. Álvaro I, 1565 – 1587, os padres jesuítas edificaram em 1548 uma nova igreja dedicada a Jesus, o Salvador e, com base no nome dessa Igreja, Mbanza Koongo passou a ser chamada São Salvador.

A cooperação nos domínios religioso, político, económico, cultural, etc. entre o Reino do Kongo e a Europa (Portugal, Espanha, Vaticano (Itália), a Holanda, etc.) influiu sobre a cidade:

Os pedreiros e carpinteiros portugueses deram assessoria aos autóctones que se tornaram também mestres desses ofícios que os soberanos vinham utilizando na construção e reparação dos edifícios de pedra.
 

A arquitectura vernácula cedeu lugar à arquitectura ocidental introduzindo novos materiais de construção (pedra, cal, telha, etc.).
Mbanza Koongo tornou-se uma cidade de pedra, uma cidade fortificada.
Com a devoção, o empenho e o dinamismo dos soberanos do Kongo na evangelização do Kongo, muitas ordens religiosas estabeleceram-se, em Mbanza Kongo, edificando muitas igrejas de pedra.

 

Dado o número de ordens religiosas, os autóctones deram-lhe a alcunha de Kongo dya Ngunga (Kongo dos sinos).
Sob o reinado de Mvemba Nzinga (D. Afonso I) (1506-1543), o apóstolo do Kongo, por exemplo, uma grande muralha, de aproximadamente 4,5 a 6 metros de altura e com a espessura de cerca de 75 a 90 centímetros, foi construída nos arredores do bairro real e de um bairro destinado aos Portugueses.
A maior parte das construções de grande vulto, palácio dos soberanos (Ntotela), as igrejas, os conventos, as muralhas, as residências, etc. estavam construídas em pedra e cale e cobertas de telha.
Para termos uma ideia sobre a importância da cidade, vejamos as estatísticas da população de Mbanza Kongo e arredores. Neste momento a cidade tem 100.000 habitantes, é quase a população que tinha em 1506. Os padres dominicanos que visitaram a cidade em 1610 assinalaram que a região, densamente povoada, se estendia por uma distância considerável em torno do planalto e vales vizinhos por cerca de 10 km.

A antiga capital do Reino do Kongo nasceu, cresceu e atingiu a idade de ouro e acabou por desaparecer devido aos conflitos, intrigas e às sucessivas guerras civis. O abandono a que estava votado Mbanza Kongo, as intempéries e a acção do homem, todos estes factos contribuíram para a destruição e desmoronamento total de Mbanza Kongo. Todos os vestígios de um passado glorioso foram desaparecendo soterrados.

 

O QUE É QUE FICOU DA ANTIGA CAPITAL DO REINO DO KONGO?

O que está à vista:

Igreja da Sé "Kulumbimbi"
Os nativos chamam a igreja da Sé por Kulumbimbi (kulu ou nkulu = antepassado e mbimbi significa algo de respeito. Isto significa que é um edifício que merece respeito. Como eles não viram o edifício a ser construído, ele é atribuído aos antepassados e está envolvido em mitos. Segundo a tradição oral, Kulumbimbi foi construído numa noite por pessoas desconhecidas (antepassados); quem entrava nela desaparecia e o local não molhava quando estivesse a chover. Dos nossos dias, as pessoas entram no Kulumbimbi sem desaparecer e as ruínas ficam molhadas quando chove porque teria perdido os seus poderes, teria sido profanado com a ocupação estrangeira.

Coluna
Yala Nkuwu (árvore de força) "Boas vindas" O Yala Nkuwu significa boas vindas. Esta árvore seria a única espécie que existe na região. Nunca foi estudada cientificamente. A seiva desta árvore é vermelha. Assim, tem havido especulações à volta desta árvore. A tradição reza que, debaixo de Yala Nkuwu, os reis eram entronizados, recebiam as visitas, promulgavam as leis e administravam a justiça.

A queda de uma folha é sinal de mau augúrio, anunciando a morte de um chefe. E nas eleições, antes da intromissão dos Portugueses nos assuntos políticos internos do Reino, os candidatos ao trono sentados sob a árvore, após o ritual, uma folha caía e pousava sobre a cabeça de um dos candidatos. Este sinal significava que era o candidato escolhido ou indicado pêlos antepassados. E a assistência proclamava e anunciava o novo rei.

Ruínas no bairro Kiditu
Cemitério da mãe de Mvemba Nzinga (D. Afonso I) O ntotela Mvemba a Nzinga - D. Afonso I - mandou enterrar a mãe, pois esta não quis abandonar a cultura kongo. Recordemos que Mvemba a Nzinga, após a tomada do poder, convocou todos os chefes do reino ordenando o seguinte: «Deixem de honrar os feitiços, de crer em amuletos, agora que vimos a cruz do filho de Deus. Todo aquele que os honrar será condenado à morte», fim de citação. E como a mãe não abandonou os amuletos foi enterrada viva, para servir de exemplo.
O surgimento da nova cidade de Mbanza Koongo

Por cima das ruínas das antigas construções nasceu a nova cidade, a actual capital da província do Zaire.
Durante a ocupação efectiva colonial portuguesa, o montão de pedras de diversas construções serviu de material para a construção dos edifícios administrativos, das missões católicas e protestantes (igrejas, conventos, escolas) e da construção das residências e casas comerciais.
A recuperação dos materiais de construção para a edificação da actual vila fez desaparecer quase totalmente as antigas ruínas tendo-se somente preservado as ruínas da «Sé» (Kulumbimbi), a coluna, e YalaNkuwu.

A preservação das Ruínas de Mbanza Koongo

Tentando preservar o resto das ruínas da Sé à vista e dos espaços (palácio dos soberanos, etc.) achados existirem restos das fundações soterradas, a então Comissão dos Monumentos Nacionais mandou classificar, em 1957, uma parte da vila como Zona Histórica.
Contudo, não obstante a classificação da Zona Histórica de Mbanza Kongo, esta nunca foi objecto de uma verdadeira preservação.
Após a classificação da Zona histórica, a então Comissão dos Monumentos Nacionais, propôs ao Governador-geral de Angola e ao Governador de distrito do Zaire que os restos dos antigos edifícios fossem enquadrados nos espaços verdes com vista a constituir uma zona histórica-arqueológica que pudesse ser integrada no programa do desenvolvimento urbano.

De 1965 a 1970, houve diversas obras urbanas:

A urbanização da cidade
Abertura de valas para os cabos eléctricos e canalização de água.
A abertura e pavimentação das ruas.
Estes trabalhos permitiram a divisão da Zona histórica em duas:

A zona menor, interdita a todo o tipo de construção
A zona maior, condicionada e dependente do resultado das escavações arqueológicas.
Forneceram pistas para o início das escavações arqueológicas.
Destas escavações, foram desenterrados e encontrados:

As ruínas do Paço real;
As ruínas de um convento;
As ruínas de um muralha;
As ruínas de diversas fundações;
Esqueleto humano;
Numerosas ossadas humanas;
Contas;
Missangas;
Cacimbo de barro;
Duas moedas de cobre de 1873 e 1892;
Argola;
Caurins soltos;
Contas vítreas;
Pulseiras
Cordão de ouro;
Cordão de prata dourado;
Diversos farrapos de tecidos bordados e franjas com fios metálicos dourados.

Entretanto, quando começaram a desenterrar as importantes fundações até então ocultas, as autoridades municipais de São Salvador do Congo mandaram suspender todos os trabalhos de escavações cobrindo as valas de pesquisas, tapando os alicerces postos a descoberto. As ruas foram asfaltadas. Nas duas zonas - menor e maior - foram construídos edifícios definitivos.

Os vestígios da antiga capital do Reino do Kongo voltaram para o subsolo.

É assim que Mbanza Kongo continuam a constituir a mais desconcertante decepção que surpreende tristemente numerosos visitantes nacionais e estrangeiros que ali vão na esperança de encontrar os vestígios de uma cidade que teve um passado glorioso.

Com o fim da guerra civil e com o regresso da paz, e graças aos perseverantes esforços do Ministério da Cultura, Mbanza Kongo sortirá debaixo da terra onde j az há muitos séculos. O desenterro das" ruínas da antiga capital do Reino do Kongo abrirá novas perspectivas para a salvaguarda e valorização do Património da República de Angola e ajudará ao conhecimento e à compreensão da história da antiga capital do reino do Kongo, em particular e do reino do Kongo em geral.

 

Fonte:

EMMANUEL ESTEVES
Historiador e Investigador do Arquivo
Histórico de Angola 

 

 

 

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