Mário Pinto de Andrade

Publié le par Angola-Inteligente Ao servoço do povo Angolano

Amigos-026

 

 

Data de nascimento: 21 de Agosto de 1928 (f.: 26 de Agosto de 1990, em Londres, Reino Unido)
Naturalidade: Golungo-Alto, Angola

- 1929/1947: Estudos primário e secundário em Angola.
- 1948: Viaja para Portugal; matricula-se no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa.
- 1949/52: Juntamente com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo, na Casa dos Estudantes do Império, no Clube Marítimo e no Centro de Estudos Africanos promove actividades culturais visando a redescoberta de África.
- 1953: Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa.
- 1954: Vai viver em Paris.
- 1955: Redactor da revista Présence Africaine, é também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros; acabará por se formar em Sociologia, na Sorbonne.
- 1960: Com a prisão de Agostinho Neto pela PIDE, Mário assume a presidência do recém fundado MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA (MPLA); Mário como presidente e Viriato da Cruz como secretário-geral transferem a direcção do MPLA de Luanda para Conakry.
- 1961: Após a independência do Congo Belga, Mário e Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville.
- 1962: Mário entrega a presidência do MPLA a Agostinho Neto, que acabara de fugir de Portugal.
- 1965/67: Mário coordena a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP).
- 1973: É mandatado pelo Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA, para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.
- 1974: Mário, com o seu irmão Joaquim, funda a “Revolta Activa”, corrente que se opõe à liderança de Agostinho Neto no MPLA, exigindo a democratização do regime; os dois irmãos Pinto de Andrade e outros militantes são muito perseguidos e têm que abandonar Angola.
- 1976/8: Após a independência de Angola, Mário exila-se na Guiné-Bissau e ocupa o cargo de coordenador-geral do Conselho Nacional de Cultura.
- 1978/80: Mário é o Ministro da Informação e Cultura da Guiné-Bissau.
- 1980: Golpe de “Nino” Vieira na Guiné; Mário desloca-se para Cabo Verde.
- Anos 80: Mário colabora na “História Geral da África”
- 1990: A 26 de Agosto Mário falece em Londres.

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Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:
- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.
Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

– Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.

- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro…

- A ver vamos se é mania ou intuição…

 

Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão…

- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.

 

Fico atordoado com a resposta.
- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?
- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

 

Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço…). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?
Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português…

Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:
- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.
 

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

 

 

 

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.
Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser…

Em 1950 um grupo de estudantes oriundos das colónias portuguesas funda um Centro de Estudos Africanos (CEA).

 

 

Entre eles estão Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, os poetas são-tomenses Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro, e a poeta moçambicana Noémia de Sousa. Diz o Mário:
- Os objectivos do Centro de Estudos Africanos são os de racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente.
O mesmo grupo, com os mesmos objectivos, profere idênticas palestras no Clube Marítimo.

Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa…

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

 

 

CANÇÃO DE SALABU

 

 

Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
- Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé

 

 

 

 

Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.
Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.
Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário…

Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.
– Batatada, mania ou intuição? – hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.
Fernando Correia da Silva
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Conheci este “intelectual africano”, como gostava de ser designado – detestava que o classificassem como político – na Guiné Bissau. Era ele ministro da cultura do governo de Luís Cabral. E a verdade é que o sector da cultura estava bem entregue, sempre muito movimentado, com iniciativas que davam a Bissau uma existência no campo da cultura que muito poucas outras capitais africanas teriam naquela altura. Foi na Guiné Bissau, durante este mandato de Pinto de Andrade que tive a oportunidade de assitir a alguns filmes que nem sequer passaram por Lisboa.
Mais tarde, depois do golpe de Novembro de 80, que o levou a desligar-se de Bissau e a procurar Cabo Verde, passámos algumas horas a conversar, sobre a actualidade africana e, muito particularmente, Angola.
Perguntava-lhe eu: “…então, Mário, quando é que temos a História que está por fazer do movimento de libertação…?
Respondia-me ele, com aquele sorriso matreiro e a voz um pouco nasalada: “…sabes como é que começou a Revolta Activa…? Sabes?… foi quando um miúdo, como tu, veio com essa mesma conversa: “… então, mais velho, quando é que nós sabemos a verdade histórica…quando é que esses documentos nos dizem o que esteve e o que está mal…? O resultado foi o que se viu.
A posição dele não era a de um espectador, relativamente a Angola, embora a sua preocupação fosse muito mais ampla, à escala de toda a África.
Escrevia de vez em quando para o África, cuja redacção o entrevistou por diversas vezes. Lembro, por exemplo, uma entrevista que me deu no Mindelo, a propósito das comemorações dos 50 anos da Revista Claridade e em que ele falava da esperança de que o caminho seguido pelas autoridades da Praia fosse seguido, em primeiro lugar, por todos os outros quatro de Língua Portuguesa e, logo de seguida, pelos países da África Ocidental.
De resto, alguns dias depois da conversa, tida no quintal do Hotel 5 de Julho para que ele não desperdissasse uma oportunidade de apanhar Sol, ele seguiria para Dakar, onde, com Maria do Céu Carmo Reis ( outra angolana que não vivia na sua terra), Samir Amin, Houtounndji Benin e outros, iria participar no “Forum do Terceiro Mundo” e onde seria debatida “a dimensão cultural do Desenvolvimento em África”.
A sua opinião era estudada com respeito e funcionava, muitas vezes, como conselheiro especial, por exemplo, do Presidente Aristides Pereira.
Se havia alguém que conhecia profundamente as várias peripécias do movimento global de libertação dos Cinco era o Mário Pinto de Andrade, que, de vez em quando, gostava de contar algumas estórias.
Por exemplo,nos primeiros tempos da organização do MPLA, que contava com o apoio activo da Argélia, ele saía, muitas vezes do gabinete de Ben Bella, o então presidente daquele país do Magrebe, com um monte de notas de dólar embrulhadas em jornal.
Foi pena que tivesse insistido na ideia de que a sua visão das coisas, desde o começo, a ser divulgada, não ajudaria muito a solucionar os problemas ,que eram muitos.
A sua última posição política relativamente a Angola era a de que, no interior das forças políticas e da sociedade civil angolanas se encontraria gente para procurar e concretizar um consenso para uma solução. Ao lembrar hoje o Mário Pinto de Andrade, o amigo e o africano de grande valor, não posso deixar de lamentar que o tempo não o tivesse deixado escrever tudo quanto sabia.
Leston Bandeira
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O valioso tempo dos maduros

 

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

 

Mário Pinto de Andrade

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