Introdução ao Estudo da História de Angola

Publié le par Angola-Inteligente

 

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1. Angola Nação Jovem

Angola como nação é ainda uma realidade jovem na comunidade das nações. A Nação Angolana é de facto um todo que é feito por dez povos, ou grupos étnicos, como também são designados, e que no partilhar do que têm em comum estão ainda cimentando a construção da Nação Angolana. Alguns destes povos estão mais (ou menos) empenhados neste processo que outros, embora todos façam parte da mesma.

A coesão destes povos numa só nação começou nos últimos tempos do período colonial, e tomou forma na resistência comum (se bem que não centralizada) à soberania portuguesa. A luta de libertação ajudou a catalizar esta unidade nacional, que por sua vez tornou possível uma Angola una e independente.

Se bem que a Guerra Civil Angolana, que assolou o país entre 1975 e 2002, tenha maiores raízes na Guerra Fria, que os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (USSR) travaram durante 40 anos pelo controle do mundo, podemos dizer que o conflito angolano tinha também raízes tribais. Só com a paz alcançada em 2002 é que a nação Angolana pôde finalmente retomar livremente a orientação de unidade nacional.


2. Estados, Nações e Território em África

Como a maioria das nações africanas, a Angola de hoje é um produto do colonialismo europeu, que depois da Conferência de Berlim em 1885, não conhecendo as fronteiras dos territórios dos povos africanos, dividiu a África em colónias sem obedecer a qualquer geohistória dos povos subjugados.

Esta repartição cega de África teve lugar nas chancelarias europeias, sem qualquer consideração pela história e soberania dos povos africanos no terreno. Assim, as fronterias das colónias africanas atravessam territórios antes unidos sob a soberania de vários estados nativos, resultando na geopolítica actual africana, onde encontramos o território tradicional dos antigos estados africanos repartido entre vários estados actuais, como são os exemplos do Império Lunda e do Povo Bakongo, que se repartem entre Angola e o Congo (Kinshasa), ou dos povos Herero e Ambó, que agora está repartido entre Angola e a Namíbia, ou ainda dos Khoisan que se repartem por um território tradicional ainda maior que inclui partes de Angola, Namíbia e Botswana; ou ainda dos territórios actuais que incluem vários estados antigos, como ainda é o exemplo do território actual de Angola, que inclui parte dos territórios de dez povos que anteriormente ao colonialismo europeu faziam parte de estados independentes com soberania própria e efectiva sobre o seu território tradicional.


3. Homem e Tempo em História

No estudo da história encontramos duas unidades fundamentais: "homem" e "tempo". Quando nos referimos a "homem" queremos dizer grupo, sociedade, povo, nação, civilização ou humanidade, e quando nos referimos a "tempo" queremos dizer evolução, época ou período. Assim nesta Viagem Pela História de Angola, usarei muito a perspectiva de "povo", e tentarei sempre enquadrar a História de Angola de acordo com "períodos" claramente agrupados e definidos. Voltaremos mais tarde a estes tópicos quando aprofundarmos algumas noções fundamentais de história no próximo troço desta Viagem (Um Pouco de Historiografia). Contudo, acho oportuno investigarmos neste momento o conceito de "povo" no contexto da História de Angola, pois penso que nos vai ajudar um pouco nesta nossa Viagem.


4. O que é um Povo?

O que é que define um povo? De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, Edição de 2004, da Porto Editora, um "povo é um grupo de indivíduos que tem a mesma origem, a mesma língua, e partilham de instituições, tradições e costumes e um passado económico e histórico comum". A esta definição podemos adicionar mais identidades como o tipo genético, cultura, a religião, o modo de produção, e o território, que decerto nos ajudam muito a classificar grupos humanos de acordo com as suas características mais importantes.

Contudo, o conceito de "povo" é ainda fluido e nunca inteiramente homogéneo, pois está sempre em constante evolução e mutação, nunca "cristalizando" numa determinada forma; assim, ao longo do tempo, certos povos e nações deram origem a outros povos e nações, como é o exemplo da maioria dos povos da Europa de hoje.

Sob o risco de ser erroneamente compreendido como advogando uma perspectiva tribal (e não nacional), que de forma alguma é a minha intenção, usarei o termo "povo" e não "grupo étnico" ou mesmo "grupo etnolinguístico", para designar os grupos que partilham um território nacional específico, praticam a mesma economia, falam uma língua específica, e vivem uma identidade cultural diferente de todos os outros, pois, com a excepção de governo próprio independente e soberania territorial, reúnem todos os predicados para que sejam designados como povos e não somente como grupos étnicos.


5. Povos na História de Angola

Contudo, na formulação da História de Angola é importante que nos debrucemos sobre o estudo da histórias destes povos antes, durante, e depois da sua inclusão no universo histórico a que chamamos Angola. Assim, e a tom de introdução sobre o capítulo "Os Povos de Angola", apresento uma resenha muito geral de cada povo, indicando o seu percurso histórico de migração, território que ocupavam, economia que praticavam, língua que usavam, e alguns dos aspectos mais significativos da sua economia, estrutura social e cultura, bem como uma breve referência aos seus heróis e acontecimentos mais notáveis da sua história.

Este esboço inclui os povos pré-Bantos Khoisan, Cuepes e Cuíssis e os povos Bantos que num movimento migratório que durou mais de seis séculos vieram estabelecer-se no actual território de Angola, que inclui os povos Bakongo, Ambundo, Lunda-Quioco, Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga, bem como o grupo híbrido dos Quimbares na região de Namibe (Moçamedes) que resultou da misceginação de indivíduos oriundos de grupos étnicos diferentes que foram atraídos para trabalhar na indústria da pesca, e as sociedades crioulas composta de mestiços que resultaram do cruzamento genético e sincretismo social e cultural entre os povos tradicionais africanos e os Portugueses ao longo de quase cinco séculos.

 

Fonte: Helder Ponte

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