Geoestratégia: A mudança do papel de África na globalização

Publié le par Angola-Inteligente

290811_africa2.jpg

 

O mundo já não pode ser dividido de forma simplista, entre Norte e Sul, entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Para entender a complexidade desta mudança, este relatório baseia-se, e desenvolve o conceito de James Wolfensohnde um mundo a «quarto velocidades» -Prósperos, Convergentes, Lutadores e Pobres - Isto revela um novo mapa global de crescimento: alguns países em desenvolvimento estão a começar a alcançar os padrões de vida dos prósperos, outros lutam para superar o «tecto de vidro» do rendimento médio, enquanto outros não conseguem livrar-se da extrema pobreza.

 

Dois períodos temporais emergem. Para a maioria das economias em desenvolvimento, os anos 90 foram outra «década perdida», atingida por crises financeiras e pela instabilidade. Alguns países africanos continuam a estagnar. O Norte de África e a região austral do continente lutaram, com o crescimento a responder fracamente à reforma.

 

Na primeira década do século XXI, antes da crise económica, muito do mundo em desenvolvimento conheceu o seu primeiro crescimento forte, desde há anos. No novo milénio, pela primeira vez desde os anos 70, o rendimento per capita africano cresceu mais rapidamente do que nos países de elevados rendimentos. O número de países convergentes – aqueles que registaram o dobro do crescimento do rendimento per capita das nações com elevados rendimento da OCDE – passou de 12 para 65.

 

O número de países pobres desceu de 55 para 25. Nesta década, a taxa de crescimento média da China e da Índia situou-se entre o triplo e o quadruplo da média da OCDE. Em África, se um grupo de países pobres – sobretudo na África Ocidental e Central – continuou com um fraco desempenho, não deixa de ser extraordinário que 19 países tenham conseguido passar para a categoria de convergentes, nos anos 2000, quando apenas dois o tinham conseguido nos anos 90. A maioria dos países que deu o salto ainda luta contra a pobreza e a desigualdade. No entanto, como o mapa seguinte demonstra, houve uma alteração impressionante no crescimento médio de África, por comparação com o resto do mundo.

 

Se olharmos para os anos em que os países da OCDE entraram em recessão, a imagem ainda é mais impressionante: cerca de metade das economias africanas passaram para o grupo dos convergentes.

 

Esta mudança deve ser vista com alguma precaução, pois o tamanho da brecha entre as economias prósperas e as outras, em 2009, pode bem distorcer a imagem média. Os dados revelam, porém, que a crise acelerou significativamente a mudança da riqueza global e África foi um dos beneficiários. Se esta mudança perdurará, ou se um novo crescimento na OCDE pode enviar de novo alguns países para a divergência, é algo que ainda não é possível saber.

 

A história de África e dos seus parceiros emergentes é um ponto-chave do realinhamento da economia mundial na última década. Com melhores políticas, o continente beneficiou de mais investimento, comércio e ajuda, bem como de vantagens macroeconómicas, políticas e estratégicas geradas pela ascensão dos países emergentes.

 

A rápida integração dos parceiros emergentes na economia mundial começou nos anos 80, e foi acelerada com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. A China, a Índia, bem como outros, registaram um elevado crescimento, a sua importância económica cresceu, e conheceram uma enorme redução da pobreza.

 

Existem impactos globais e bilaterais no crescimento e na pobreza noutros países pobres, incluindo em África. A dimensão global inclui o impacto nos salários, nas taxas de juro, nos preços dos produtos industriais e das matérias-primas, nos desequilíbrios globais e no investimento líquido. Esta dimensão global não é muito abordada quando se fala de combate à pobreza. A maioria das análises concentra-se nos laços entre a China e África: matérias-primas, comércio, investimento, créditos à exportação, ajuda e migrações.

 

Na verdade, os parceiros emergentes não beneficiam todos os países africanos. Os países ricos em petróleo e em minerais tiveram benefícios desproporcionais, enquanto outros – especialmente aqueles que não têm laços diplomáticos com a China – não tiveram praticamente qualquer vantagem.

 

O «efeito de motor de crescimento» foi documentado e analisado em Garroway et al. (2010). Nos anos 90, os países do G7 lideraram o crescimento dos países em desenvolvimento, mas, já nos anos 2000, o impacto do crescimento chinês nos países de rendimentos baixos e médios aumentou significativamente. Neste período, uma alteração de 1% nas taxas de crescimento chinesas resulta numa mudança de cerca de 0.3% nos países de rendimento baixos e de 0.4% nos de rendimento médio. Rodrik (2010) argumenta que esta situação aumenta a dependência dos países pobres das exportações de matérias-primas não processadas, e – por causa da subvalorizada moeda chinesa – mina a sua industrialização. Com o argumento oposto, Garroway et al. (ibid.) sustentam que o efeito de motor de crescimento, ao sustentar a procura mundial de bens que os países pobres exportam, beneficia de igual forma os países produtores e não produtores de petróleo.

 

Um aumento estável da procura mundial desencadeou um «super ciclo» nos preços das matérias-primas (Standard Chartered, 2010). A aceleração da urbanização e o rápido crescimento das classes médias nos países emergentes têm um grande impacto na procura de mercadorias. A urbanização é particularmente intensiva em mercadorias e o consumo aumenta rapidamente, à medida que os rendimentos se aproximam de um nível classificado como «classe média»2.
Para além deste aumento da procura, os desequilíbrios globais ajudaram a impulsionar os preços das mercadorias. Até 2006, o investimento das cada vez maiores reservas de moedas estrangeiras em obrigações do tesouro norte-americanas por parte dos novos actores deprimiu as taxas de juro globais, e fez aumentar os preços das mercadorias. África beneficiou desproporcionalmente, na medida em que produz mercadorias cujos preços provavelmente subirão mais e possui a maior parcela de recursos inexplorados (Collier, 2010).

 

A expansão, se for sustentada, deverá gerar mais benefícios para África. À medida que os países emergentes se transformam em economias avançadas – sem uma mudança radical no seu crescimento –, enriquecem e se tornam demograficamente mais maduros, o seu sucesso impulsionará as oportunidades de exportação de África. Quando os pobres partilharem a nova riqueza, mais de dois mil milhões de pessoas viverão em países que importam bens intensivos em trabalho, e menos pessoas viverão nos países que os exportam, abrindo ainda mais oportunidades para os produtos africanos. O crescimento sustentado dos gigantes emergentes pode ter um efeito negativo de curto-prazo nos sectores produtivos africanos, mas pode melhorar as perspectivas de longo-prazo (Chamon and Kremer, 2006). Se se continuar a redução das barreiras aos negócios e ao comércio, as economias africanas podem ganhar com a deslocalização da produção para longe das que hoje são as economias emergentes.

 


O Fundo Monetário Internacional (2011) considera que a alteração dos padrões de produção em grandes economias emergentes, como a China, pode ajudar os países com baixos rendimento a diversificar a sua produção. A experiência da Malásia, da Indonésia e do Chile, argumenta o FMI, mostra que países pobres com recursos naturais podem diversificar as exportações à medida que crescem, desde que as receitas dos recursos sejam usadas para incrementar a capacidade produtiva, incluindo capital infra-estrutural e humano. Por outro lado, África necessita de promover o desenvolvimento do sector privado, como sublinhado em diversas edições das Perspectivas Económicas em África.

 

As relações entre o continente africano e os seus parceiros emergentes necessitam, assim, de ser compreendidas no contexto da mudança global da riqueza.

Publié dans Africa

Commenter cet article