Samedi 2 juillet 2011 6 02 /07 /Juil /2011 19:38

Escrito por Mbela Issó

 

Fonte Nação Ovimbundu.net

 

 

"As culturas equivalem-se. É na diferença e pluralidade que se encontra o sentido de humanidade"
Mindlin

Num dos artigos, relativos à história dos Ovimbundu, apresentamos três hipóteses sobre a possível origem deste grupo étnico, tendo-nos inclinado, depois de apresentarmos alguns factos, para a hipótese para nós a mais defensável segundo a qual os Ovimbundu descendem dos autores das pinturas rupestres de Caninguiri que, através de um processo de aculturação e miscigenação, foram adquirindo traços dos outros grupos bantu, chegados de paragens e latitudes longínquas.


caniri.jpg
Caninguiri: pinturas rupestres

Os mitos possuem uma importância capital, porquanto a análise das narrativas permite não só resgatar elementos susceptíveis de subsidiar a análise de factos históricos (complementando as fontes escritas), como também auxiliar na identificação de elementos culturais com vista à construção da identidade de um determinado grupo étnico.

O mito, e como muito bem o diz Chiapini (2000), pretende, na maior parte dos casos, explicar o surgimento do mundo e de alguns fenómenos da natureza, dentro de uma lógica estrutural, com um enredo, que entretém as pessoas, mas também mostra o nível de desenvolvimento do pensamento e da cultura de uma determinada comunidade. Pese embora o carácter lúdico, e mesmo de entretenimento, os mitos são relevantes na vida das comunidades. É precisamente isso que nos diz Lévi-Strauss (1967), para quem a relevância dos mitos não radica apenas no seu conteúdo mas, sobretudo, na sua estrutura, uma vez que eles contêm processos mentais universais.Autores como Campbell (1997) referem-se ao facto de ser característico dos mitos a presença de seres sobrenaturais, chamando-nos com isso a atenção ao facto de os mesmos pretenderem estabelecer uma ponte entre o mundo imaginário e a consciência racional. Torna-se, não obstante, necessário não confundir o mito e a lenda com a superstição. Os mitos e as lendas apresentam-se, geralmente, como narrativas populares de carácter oral, que se transmitem de geração em geração, cuja tónica dominante recai no sobrenatural, enquanto a superstição apresenta-se como a fragmentação de um velho mito, com a entrada de um novo elemento que é o medo ou o terror (Chiapini,1988).


O mito Ngalangi

Segundo os dados de que dispomos, a lenda sobre a origem do mundo dos Ovimbundu foi recolhida por Keiling (1934) e mais tarde retomada por Child (1964). A tradução de Luís Keiling é a seguinte:

“ Um dia um homem, a quem foi dado o nome de Féti (princípio), caiu do céu e deu-se a percorrer a terra e notou que, a par dos milhares de animais, ele era o único homem. Que aborrecimento e enfado sentir-se tão só no meio da criação! Para ver se espairecia, lembrou-se de ir ao Cunene para caçar um pouco. Pegou, pois, nas armas e foi em busca de um hipopótamo, que lhe fornecesse carne e gordura. Horas esquecidas esteve Féti à espera de uma peça de caça, quando, em vez do suspirado animal, viu a surgir das águas uma forma humana, muito semelhante a si mesmo: era a primeira mulher a quem deu o nome de Tchoya, que, derivando do verbo okuoya, quer dizer enfeite, ornato, perfeição. E tão bela, tão garrida a achou o nosso Féti que dela se enamorou e com ela fundou a primeira família que pela luz do sol foi alumiada. Passaram dias, passaram meses, e numa bela manhã foram os ecos da mata despertados pelos vagidos de um novo ser, que viera albergar a habitação do felizardo Féti. Não houve ave do céu, nem animal da floresta, que não viesse dar aos pais os parabéns por tão bom acontecimento. Encantados, impuseram os progenitores ao recém-nascido o nome de Ngalangi. Passaram tempos, e eis que em casa aparece um novo bebezinho, desta vez uma menina, a quem chamaram Viyé. Viyé, provém do verbo okuiya, que, em português, se traduz por vir. Queriam os pais significar que aquela filha havia de chamar a si as populações e ser o tronco de uma grande família. E Viyé veio a ser a mãe das raças do norte, isto é, das terras do Bié, enquanto Féti foi o pai das gentes do Sul. Assim, contam os Ngalangi e terminam por afirmar que deles descendem todos os habitantes do Bié, Huambo,Sambo, Cuíma e Caconda”.


Análise da narrativa

A presente narrativa levanta um aspecto muito importante do ser humano, ou seja, a tentativa de compreender a sua origem. Sob o ponto de vista da estrutura composicional, a narrativa obedece, como se pode ver, a uma linearidade cronológica dos factos, aparecendo, não obstante, um elemento de subversão, a solidão, de cuja resolução surgem outras situações, cujos desfechos vão levar ao nascimento de vários reinos; daí o seu carácter explicativo que remete para a crença de que a solidão, por si só, é perniciosa, pois o homem é, eminentemente, um ser social. Por outro lado, o tempo e o protagonista assumem posições um tanto ou quanto díspares. Se bem que a personagem principal esteja definida no texto (Féti), a atemporalidade é um aspecto notório o que torna a narrativa mais abrangente, englobando todos os subgrupos da etnia Ovimbundu, e não só, cujas origens se pretendem explicar. Neste sentido, a metáfora do homem que caiu do céu (Féti), responde, em pleno, à questão da vida e do nascimento da primeira forma de organização da sociedade humana no espaço territorial ocupado pelos Ovimbundu. Por outras palavras, tematizam-se aspectos de grande significado para a compreensão da origem dos mesmos através de uma linguagem simples. Do ponto de vista da estrutura arquetípica, posta de manifesto através do surgimento da fêmea (da lama), a mesma não pode dissociar-se da própria cultura Ovimbundu onde se gerou a narrativa, tomando em consideração o papel da mulher na referida comunidade. Recorde-se que o homem veio do céu.Outras análises poderiam ser feitas, nomeadamente em aspectos que se prendem com a micro-estrutura (aspectos linguísticos), pois estamos cientes de que uma análise deste tipo não deveria cingir-se apenas à estrutura geral da narrativa (enredo) e ao conteúdo temático. Lamentavelmente, uma tradução não permite irmos assim tão longe. Acresce a isso que o nosso propósito foi o de analisar a narrativa dos Ngalangi sob o ponto de vista macro-estrutural, apegando-nos mais em questões de índole histórico-cultural, que propriamente literária e linguística, o que poderá ser feito noutras ocasiões.

Implicações

A presente narrativa propõe uma visão endógena da origem dos Ovimbundu, contrária às fontes escritas onde a temática é posta nos processos migratórios (de fora para dentro). A lenda mostra que este processo se desenvolveu de dentro para fora, isto é, os Ovimbundu tiveram a sua origem precisamente nas proximidades do rio Cunene e daí foram-se expandido para outras áreas e regiões. Apesar disso, o bom-senso recomenda-nos certa cautela para não cairmos em certos exageros e análises precipitadas, mesmo que autores como Clark (1973) afirmem que a infiltração “banto no território terá sido feita gradualmente, por pequenos grupos (...), que terão sido acolhidos pelas populações autóctones, e na maior parte vivendo o período mesolítico”. Este ponto de vista reforça a nossa hipótese de os Ovimbundu serem resultado de uma simbiose entre os autores das pinturas de Caninguiri e os Bantu que, posteriormente, os contactaram. É do mesmo autor a ideia segundo a qual “a ocupação de lugares desertos ou de fraca densidade populacional, a miscigenação, a adopção da cultura e até da língua dos povos autóctones terá dado lugar a uma bantoização progressiva das populações”.

caniri1.jpg                                                                     Caninguiri: O berço dos Ovimbundu

Pese embora estes subsídios fica por responder a questão do significado da narrativa do subgrupo Hanya que, conforme nos diz Hauenstein (1967), também postula pela existência de Féti e Tchoya como o fazem os Ngalangi. A única diferença reside no facto de que, para os Hanya, os Ovimbundu teriam vindo de um local chamado Nali, instalando-se, posteriormente, em Cinendele já em território angolano. E não deixam de ser curiosos os palpites de Child de que Féti teria emigrado mais para Norte. Nesta linha de ideias os reis Ngola, de cujo nome deriva Angola, teriam descendido de Féti. Consequentemente, algumas etnias irmãs seriam, nesta linha de ideias, descendentes da etnia Ovimbundu, e não o contrário, como o afirmam certos estudiosos. Será?

Bibliografia:

Cambell, J. (1997). O poder do mito. S.Paulo: Ed.Palas Athena.

Chiapini, L. (2000). Género dos discursos na Escola. Brasil:Cortez Editora.

Childs, M. (1949). Umbundu Kinship and Character. Londres:Ed. International Africain Institute

Clark, D. (1963). A pré-história de África. Lisboa: Edições Verbo.

Ervedosa, C.(1980). Arqueologia Angolana. Angola: Ministério da Educação

Keiling, L. (1934). Quarenta anos de África. Braga. Ed. Missões de Angola e do Congo

Hauenstein, A . (1967). Lês Hanya (Description d´un groupe ethnique bantou de l´Angola. Wiesbaden : Franz Steiner Verlag GMBH.

Lévi-Strauss, Cl. (1967). A estrutura dos mitos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro

 

 

 

A Origem dos Ovimbundu: Outras Contribuições

 

 

Com o intuito de aprofundar o debate sobre a origem dos Ovimbundu, vamos apresentar, a partir de hoje,  opiniões de diversos autores que se debruçaram sobre este grupo étnico. Começaremos por apresentar a obra de  Hambly, Wilfrid Dyson," The Ovimbundu of Angola", escrita em 1934.

Chamamos não obstante a atenção dos nossos leitores ao facto de que as ideias de cada autor a ser analisado não convergem necessariamente com as nossas, mas que nos dão algumas pistas para pesquisas a realizar na área da História e da Antropologia.

 

Tradução da obra  do inglês para o português por Mbela Issó.

 

 

Os Ovimbundu de Angola

 

O objectivo deste capítulo é o de sistematizar a literatura sobre Angola datada do ano 1500 depois de Cristo até aos nossos dias. Tais obras falam de movimentos tribais que poderão dar alguma luz, quer sobre a origem dos Ovimbundu, quer sobre a data das suas migrações desde os planaltos de Benguela. De acordo com a tradição, existe uma unanimidade no que diz respeito ao facto de este grupo étnico ter vindo do Nordeste, tendo como referência o local onde se encontram. No entanto, é uma ideia que ainda carece de mais justificações históricas. A palavra Ovimbundu (pessoas das névoas ou do nevoeiro)[1] talvez se justifique pelo facto de o planalto de Benguela se cobrir, durante as madrugadas, por névoas muito densas o que, provavelmente, concordaria com o termo Ovimbundu.

Se há uma evidência histórica a favor da ideia de  os Ovimbundu serem originários da região norte e nordeste de Angola,  o que corresponde às condições etnológicas destas áreas, importa então saber quando foi que os Ovimbundu se separaram da matriz dos grupos étnicos angolanos que habitam mais a Norte de Angola. Por outras palavras, que elementos culturais terão vindo com os Ovimbundu aquando da sua chegada aos planaltos de Benguela (...)?

Os contactos entre os Ovimbundu e os portugueses constituem um aspecto de suma importância como parte desta investigação histórica. Quando e onde se processou o contacto entre os portugueses e os Ovimbundu e que resultados teve esse contacto  para a cultura indígena?

(...) É pertinente perguntar até que ponto as observações etnológicas de viajantes e os exploradores confirmam ou contradizem as informações anotadas por mim, ou seja, as minhas observações pessoais.  Provavelmente, as notas etnológicas obtidas de fontes históricas servirão não  só para confirmar meu trabalho de campo, mas também para entender o local onde ocorreram os aspectos culturais importantes que eu notei em 1929.

A literatura que descreve a história e os costumes angolanos é  aqui apresentada sob a forma de uma bibliografia cronológica para enfatizar os aspectos que afectam o propósito desta  análise histórica. A apresentação fragmentada dos dados poderá ser uma consequência inevitável da natureza da  bibliografia utilizada. Foram feitas observações, não durante um espaço de tempo regular, mas sim com intervalos de tempo muito irregulares. Em consequência, as obras da maioria de observadores não foi feita com um fim especificamente etnológico. Os exploradores mais recentes tiveram inicialmente a propensão de misturar os aspectos históricos e etnológicos, sendo, as suas notas constituídas, como tal, por um grande  material descritivo relativo a incidentes de viagem, à vida animal,  e a observações meteorológicas.

(...) Os portugueses entraram no Congo em 1482 sob a liderança  de Diogo Cão (E. G. Ravenstein, As Viagens de Diogo Cão, Geog.  Journ., 1900, pp. 625-649) tendo, a partir daí, crescido a sua influência política e religiosa ao longo da costa do  Congo. Gradualmente, os portugueses  estabeleceram-se  na costa de Angola. Paulo Dias fundou Loanda em 1576,  e, aproximadamente, onze anos  depois construiu o forte de Benguela.

No ano de 1590, os portugueses, para penetrarem no interior de Angola, guerrearam com os Jagas, uma tribo do norte que colocara Andrew  Battell em cativeiro, tendo-o convertido, inclusivamente, num honrado prisioneiro usado para liderar o combate contra os portugueses. Todos os nativos do Norte de Angola foram importunados, e mesmo explorados, pelos Jagas.

Em 1645, foi enviada uma expedição portuguesa, com fins punitivos,  para o interior do Bailundo que, na altura, era o maior centro de onde partiam  caravanas de comerciantes Umbundu[2] e traficantes de escravos para a África Central.

Caconda, no Sudoeste de Angola, foi fundado em 1682 e, um  século depois, a cidade litoral de Moçâmedes tornou-se num ponto de partida  para a exploração do Rio Cunene. (Para os detalhes da penetração portuguesa  em Angola veja Bibliografia: T. E. Bowditch; R. F. Burton;  E. G. Ravenstein; T. Lewis.)

Quando os portugueses chegaram ao Congo, no fim do século V,  entraram em contacto com o rei  de Congo, que governava com grande pompa e circunstância em Ambassa, a  150 milhas  no interior, localidade que passou, a partir daí, a ter a mesma importância para os portugueses como São Salvador.

O antigo reino do Congo era composto por seis clãs fortes,  que rivalizavam entre si, procurando tirar partido da presença dos portugueses para fortalecer a posição política e comercial de cada um.  O tráfico de escravos foi considerado  tão nobre quanto  lucrativo, e não há nenhuma dúvida de que a Igreja tenha participado activamente nesse tráfico (o T. Lewis, O Velho  Reino de Kongo, Geog. Journ., 1908, pp. 598-600).

A Influência política dos portugueses através dos padres Jesuítas, permitiu criar  facções no Império de Congo,  e as perturbações resultantes causaram movimentações de populações que afectaram todo o Norte de Angola e os povos do planalto de Benguela.

A penetração portuguesa no interior de Angola, especialmente  de Loanda para o Bié, visava  dominar as tribos nativas, o estabelecimento de postos comerciais, assim como estimular o tráfico de escravos (S. Marquardsen, Angola, 1928, pp. 6-10).

A importância dos portugueses como aliados das caravanas dos Umbundu do  Bié" era para providenciar armas e pólvora aos nativos os quais retribuíam através de uma ajuda que ia para mais além da militar.  Para responderem a demanda portuguesa, no que toca aos escravos e ao marfim, as  caravanas dos "Umbundu" viajaram durante um longo período de tempo  pela bacia do Congo, Rodésia, Sul e Sudoeste de Angola e, possivelmente, noutros pontos da África como o Lago Tanganica  e Niassa. As armas obtidas através da troca de marfim e escravos  ajudaram os Ovimbundu nas suas incursões predatórias. Assim, os Ovimbundu, depois de um contacto com os portugueses que durou séculos, foram encorajados a  construir a sua sociedade na base dos recursos de que dispunham.

Os portugueses nunca foram suficientemente fortes para dominar  completamente o Norte de Angola. De modo que tenham privilegiado, nas relações com os nativos,  especialmente na região dos Ovimbundu do Bié, alianças assentes numa base comercial. O resultado político  disto era a aliança dos portugueses com as tribos mais fortes  para a exploração das mais fracas.

A etnologia histórica do Congo do Sudoeste é tão complexa  que os elementos são difíceis de serem analisados. O número de tribos afectadas é grande, e os seus movimentos não são fáceis seguir; mas  uma  deslocação gradual das pessoas do Congo para o Sudoeste, em  direcção à Lunda e aos planaltos de Benguela (1600-1800),  parece ser a consequência de todo esses conflitos.

Eu considero os Ovimbundu como uma dessas vagas de pessoas, que através de uma forte disciplina, conseguiu fazer do Centro de Angola o seu ninho, apesar da mais recente oposição dos portugueses.

 

Fonte:

HAMBLY, W.D. (1934). The Ovimbundu of Angola. USA. Chicago Museum Press. 

 


O autor deveria estar a referir-se ao sufixo Mbundu que significa neblina ou nevoeiro, uma vez que o prefixo Ovi se refere ao povo ou pessoa. Literalmente, Ovimbundu traduz-se por: " povo das névoas ou da neblina".

 Deve entender-se por Ovimbundu, uma vez que, o que o autor confunde, Umbundu é a língua deste povo.

 

 

 

 

Par Angola-Inteligente - Publié dans : Africa
Ecrire un commentaire - Voir les 0 commentaires
Retour à l'accueil

Présentation

Créer un Blog

Recherche

Calendrier

Septembre 2014
L M M J V S D
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30          
<< < > >>
Créer un blog gratuit sur over-blog.com - Contact - C.G.U. - Rémunération en droits d'auteur - Signaler un abus - Articles les plus commentés