A origem dos ovimbundu: contribuições de Hmably, Wilfrid Dyson (parte II,cont.)

Publié le par Angola-Inteligente

Tradução de Mbela Isso

 

 

Estas conclusões foram validadas graças a um amplo trabalho de campo e às análises históricas feitas da obra de Torday e  Joyce "Notes on the Ethnography of the Bambala". A minuciosa análise histórica de Torday permite concluir que os Kimbundu vieram do Nordeste, abrindo caminho até Luando e que, na altura, se encontravam divididos em consequência de uma guerra civil. Parte deles atravessou o rio Kwanza, em direcção ao Sul.

A essência do problema das migrações dos Ovimbundu é atingida quando Torday descreve a história dos Kimbundu, que  são, até aos dias de hoje, vizinhos e os mais próximos dos Ovimbundu sob o ponto de vista linguístico e cultural (ovi é um prefixo Ovimbundu no plural, que talvez tenha sido utilizado para expressar a inclusão do Kimbundu e Babunda nessa tribo, sob a designação genérica de Ovimbundu, que se especializou na agricultura, tornando-se, posteriormente, sedentária). O seu subchefe chamava-se Kalunga, nome que actualmente é utilizado pelos Ovimbundu para saudar os seus chefes. As tradições dos Ovimbundu colocam o Nordeste como o centro a partir do qual  se espalharam pelos menos há dez gerações atrás.

A ascensão do reino Lunda data do século XVII, e embora os detalhes dessa concentração do poder sejam desconhecidos, os seus efeitos mais gerais são visíveis. Houve uma grande movimentação de tribos para a direcção Sul e Sudeste. Relacionado com a ideia de os Ovimbundu terem vindo do Nordeste de Angola, está a necessidade de nos lembrarmos da inexistência de qualquer fragmento, portador de evidência histórica, ou tribal, indicado que os Ovimbundu tenham vindo do Sul ou do Leste de Angola.

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Migrações Bantus

 

Existe a probabilidade de os distúrbios tribais resultantes da ascensão do império Lunda ter levado à dispersão dos Chokues para lá do Leste de Angola. Os trabalhos de campo por mim realizados levaram-me a contactar os Vacokue em Cangamba (situada mais a Ocidente), Katoko e Ngalangi.

Ao testemunhar as cerimónias de iniciação combinadas com observações sobre o aspecto físico, a língua e os artefactos, concordei com Torday na ideia segunda a qual Cangamba é, provavelmente, o centro mais antigo da cultura Cokue. Quem vier do Oeste de Cangamba verá que esta cultura é mais elaborada tal como nas fronteiras das regiões ocupadas pelos Ovimbundu e que se acham próximas dos Cokue. Ou seja, na linha fronteiriça entre as culturas dos Vacokues e Ovimbundu, fundamentalmente em Ngongo, localidade próxima de Ngalangi onde existe uma miscigenação tribal e cultural e onde os Umbundu e os Vacokue utilizavam praticamente a mesma língua. A par disso, rapazes de Ngalangi eram vistos a participar nas cerimónias de iniciação similares às praticadas em Cangamba pelos Cokues. No entanto, avançado mais para o Oeste, num território ocupado exclusivamente pelos Ovimbundu, verifica-se que tais cerimónias são cada vez mais raras, sobretudo alguns dos rituais verificados entre os Cokues.

Elende, um dos locais em que se realizou a pesquisa sobre os Ovimbundu, representa o espaço onde a língua e a cultura dos Ovimbundu, observada até ao momento presente, é a mais pura e genuína. Apesar disso, pressupõe-se que as guerras, geralmente feitas para a captura de escravos, possam ter levado a uma infusão de sangue Cokue nos Ovimbundu.

 

Os dados históricos sugerem o Norte (Setentrional) e o Noroeste como o ponto de partida das migrações dos Umbundu. Consequentemente, um inquérito etnológico nessas áreas seria útil para demonstrar com que tipos de cultura os Ovimbundu entraram em contacto antes de se estabelecerem nas terras altas de Benguela. Se as fontes históricas revelarem a natureza da cultura angolana do Nordeste a partir do ano 1500 (D.C), tal evidência poderá ser considerada em relação aos traços culturais dos Ovimbundu até aos dias de hoje.

A existência de fortes semelhanças entre a cultura Umbundu ainda existente e os padrões culturais mais antigos do Nordeste de Angola poderá ser um elemento chave para explicar a origem dos Ovimbundu. Portanto, existem evidências de os Ovimbundu, antes de se estabelecerem na sua presente “casa”, terem passado pelo Enclave de Cabinda, a norte do estuário do Congo, pela região de S. Salvador, pelo interior de Luanda e Benguela, assim como pelas áreas a Nordeste de Angola entre a Lat. 7° e 9° S. e Long. 13° e 22° E.

As minhas análises começam com as observações de Andrew Battell feitas em 1596. Os seus registos vão no sentido de que na parte Nordeste de Angola, um território fronteiriço e que actualmente inclui o território ocupado pelos Ovimbudu, foi o local onde estes tiveram, provavelmente, o primeiro contacto com os Jagas, cujos hábitos foram descritos por Battel. Os Ovimbundu possuíam, antes de 1600, numerosas cabeças de gado a norte de Benguela e os Jagas olhavam para esses animais como uma mais-valia para os seus saques. Um outro elemento importante são  palmeiras, uma vegetação característica do norte de Angola e dos planaltos de Benguela. Evidentemente, os Jagas moviam-se extensivamente no Norte de Angola, porque eles extraíam vinho das palmeiras (Battell, p. 30). O método utilizado usualmente por eles era o de abanar as árvores. No entanto, é importante referir que os Jagas eram um povo nómada que não cultivava palmeiras.

(cont.)

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